—Bonita prégação ha de fazer, se ainda não comeu.
—O Senhor me alimentará com a Sua palavra, pois que está escrito: «Não sómente o homem viverá do pão, mas de toda a palavra que sae da boca de Deus».
—Muito bem; pois agora mesmo lhe daremos duas libras se não prégar.
—Não prégar? Ora sempre os senhores teem coisas! O seu dinheiro pereça com os senhores, que julgam amordaçar com ele a palavra nos meus labios. O Senhor dá-me alguma coisa que vale mais do que algumas libras. Cristo deu-me uma coisa, a minha salvação, a qual, apezar de os senhores julgarem vendel-a a tanto por missa, não é comprada com todo o dinheiro do mundo. Não prégar!
—Porém—disse o confessor dos condes de X...—se o não faz por si, faça-o ao menos por sua esposa e filho. Vocemecê é senhor da sua vontade para se deixar morrer á fome, porém não deve obrigar os outros a que o façam.
—Julião—disse o padre Francisco—é tão credulo que julga ver entrar por aquela porta o corvo de Elias com um pão no bico.
—Sr. padre Francisco, eu não estranharia ver entrar um corvo com pão; pois Aquele que o mandou a Elias vive ainda e é todo poderoso para mandar-me a mim, não um corvo, mas sim um anjo, que me conforte.
—Vá lá—disse o padre Francisco, levantando-se—apezar de não querer ceder, e para que veja que não somos tão maus como julga, ahi tem essa libra para que se remedeie; entretanto pense bem na sua situação.
O padre Francisco dirigiu-se a Dôres para dar-lhe a libra, mas, antes de lha deixar cair no regaço, Julião suspendeu o braço do padre, dizendo-lhe:
—Agradeço-lhe do coração a esmola, porém guarde o seu dinheiro, pois que nós para nada o queremos.