—Bem—disse o padre Francisco,—acabemos de comer, e, visto que o senhor assim o deseja, iremos consultar a Biblia.

—Se lhe parece—disse Mateus,—discutiremos se as Sagradas Escrituras devem ou não ser lidas pelo povo.

—Sim, discutamos—respondeu o padre,—porém, antes disso, permita que lhe apresente os argumentos que tenho a meu favor, pois que, se eles o convencerem, pouparemos palavras inuteis. O primeiro argumento que posso apresentar é a tradição—coisa esta muito digna de se ter em conta. Porque é que nenhum bispo tem permitido até hoje que a Biblia circule livremente nas mãos do povo?... O segundo é que, ao instituir Cristo a familia sacerdotal, como pode dizer-se em hipotese, claro está que foi só para que os sacerdotes, e sómente estes, sejam depositarios e interpretes da Biblia... Depois... Depois... Os concilios!... Essas assembleias de homens doutissimos! Poços de sabedoria humana e divina!... Os papas!... Essa cadeia não interrompida de homens cheios do Espirito Santo, que vem comunicando-se duns para os outros desde o primeiro que teve o primado! Todos estes são concordes em que a Biblia deve ser prohibida para aqueles que, alterando a sua significação ou dando-lhe uma interpretação forçada, podem extraviar as almas, precipitando-as no inferno. Mateus, seja franco; o senhor mesmo não experimentou duvidas ácerca do dogma cristão ocasionadas pela leitura da Biblia sem notas? Responda-me, porém faça-o com franqueza, dizendo o que realmente sente.

—Vou responder-lhe com a franqueza que deseja. Principio pela sua ultima pergunta. Não, senhor; jámais experimentei duvidas ácerca do dogma cristão quando principiei a ler a Biblia; o que, sim, senti desde logo que possui o sagrado livro foi uma sensação de temor e respeito, que não posso explicar. Ao ler as manifestações do amor de Deus, fiquei assombrado; depois, com as Epistolas, aprendi uma porção não pequena de doutrina, e por ultimo o livro dos Atos dos Apostolos me ensinou a evangelizar. Eis aqui do que me serviu a Biblia. Hoje em dia, que me acho familiarizado com a sua leitura, esquadrinho o Antigo Testamento, estudo as profecias, a minha alma canta lendo os Salmos, sofre com Job e goza com José, aprendendo quaes são os juizos de Deus, que Se serve de tantos meios para fazer bem ao homem. Sim, padre Francisco, a leitura da Biblia enche o espirito de santas emoções, demonstra a enormidade do pecado, tornando-o odioso á nossa alma, e nos faz ver antecipadamente os inefaveis gozos que a misericordia dum Deus de amor nos prepara nos logares que hoje nos são desconhecidos.

Depois dalguns momentos de silencio, durante os quaes o padre Francisco se mostrou muito pensativo, o joven evangelista prosseguiu:

—Agora passemos a outra coisa, da qual falarei pouco, pois que quero falar com a Biblia. Diz V. que nunca na antiguidade houve quem lesse a Biblia, querendo, sem duvida, dar a entender que até ao seculo XVI não houve quem se ocupasse na tradução do sagrado texto em lingua vulgar.

«Contra esta asserção fala o bispo Ulfilas, que viveu no seculo IV, o qual, quando os godos invadiram a Hespanha, havia já traduzido para o gotico as Sagradas Escrituras; levanta-se Recesvinto, que viveu no ano de 650-672, rei dos godos, que entre as suas virtudes contava um desejo insaciavel de conhecer os misterios das Escrituras, no que respeitava á sua salvação; levanta-se um João, bispo de Sevilha, que no seculo III traduziu a Biblia para o arabe, afim de que os arabes que tinham invadido a Hespanha podessem lêl-a e instruir-se nas verdades cristãs; D. Jaime I, que reinou nos anos de 1213 a 1276, e que tão pouco está conforme com V., padre do seculo XIX, pois, emquanto que V. crê que a interpretação da Biblia pertence aos sacerdotes, aquele rei, dizem as cronicas, possuia um conhecimento profundo das Sagradas Escrituras, as quaes explicava e prégava como o mais consumado mestre de teologia, em qualquer cidade onde se achasse. Este rei não sómente prégou ao povo, senão que no concilio de Lyon, e perante o Papa Gregorio X e mais prelados, tomou para texto as palavras de Isaias: «Levanta-te; resplandece, etc., etc.,» as quaes desenvolveu com notavel admiração de todos. Outro hespanhol, Luiz de Gusmão, mestre de Calatrava, mandou traduzir a Biblia, no ano de 1432, ao sabio judeu Moisés, e, como este opozesse algumas dificuldades, conseguiu o nobre mestre, á força de dinheiro e ameaças, convencer o judeu; a tradução fez-se, e numa nota do Moisés lê-se: «Até hoje tenho gasto mil dobrões, desde que se principiou, até ao estado em que a vêdes.» Devo advertir-lhe, sr. padre Francisco, que os mil dobrões de então correspondem a umas 2500 libras esterlinas de hoje. Agora julga ainda que não houve reis, bispos e nobres que lessem a palavra de Deus? Como se atrevem os senhores a afirmar coisas que não conhecem nem sabem? Porém, vamos ao texto.

—Vejamos; eu acho na palavra de Deus o mandamento de ensinar a Biblia ás creanças, e aqui, no livro chamado o Deuteronomio, cap. 6, vers. 6-9, leio o seguinte:

E as palavras que eu hoje te intimo estarão gravadas no teu coração; e as referirás a teus filhos, e as meditarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, ao deitar-te para dormir e ao levantar-te; e as atarás como sinal na tua mão; e elas estarão e se moverão deante dos teus olhos, e as escreverás no limiar e nas portas da tua casa.

—A primeira coisa que tenho que opôr a isso—respondeu o padre Francisco—é que esse texto pode estar alterado, ou não ser exato, pois o senhor diz que esse livro é uma Biblia completa, o que não pode ser, pois que tão extensa materia não pode estar contida em tão pequeno volume; e, visto que não está anotado, não podemos nós interpretal-o.