—Eu não disse tanto. Porém donde tirou Antonia o dinheiro que deu a Dôres?

—Tel-o-hia dado á minha filha a mulher de Julião para que o guardasse.

Esta razão de Brigida pareceu transtornar o padre. Aquilo podia ser verdade. Comtudo, disse á mulher do carpinteiro:

—Creio que não me enganaram quando me disseram isto; porém, pelo sim pelo não, será bom que vocemecê conte o dinheiro que tem em casa, para ver se lhe falta algum. Eu—acrescentou—não digo que sua filha de proposito e caso pensado a roubasse, mas podia dar-se o caso de que o fizesse aconselhada pela mulher de Julião, que é um agente dos protestantes.

Brigida despediu-se do sacerdote, e saiu em direcção de casa. Quando lá chegou, seu marido tinha saido e sua filha estava em casa de Dôres.

Sobressaltada com o que o P.ᵉ Francisco lhe havia dito, dirigiu-se á comoda, abriu uma das gavetas e tirou uma saquinha em que marido e mulher guardavam o fruto das suas economias. Despejou depois todo o dinheiro sobre a comoda e começou a contal-o.

Quando acabou, uma palidez mortal cobria o seu rosto.

—Ter-me-hia enganado!—disse ela comsigo; e tornou a contar.

Por fim, depois de contar duas, tres e quatro vezes o dinheiro, guardou-o na mesma saquinha, pôl-o no mesmo sitio, e deixando-se cair, quasi desfalecida, numa cadeira, exclamou:

—Parece-me um sonho!... Seiscentos reales! Não; Antonia não foi... ela tão boa, tão... porém D. Francisco sabe mais do que eu... sim, sim, enganaram-na. Ah! tratantes! Logo que venha João, dar-se-ha parte á autoridade, e cadeia com eles... Ah!—exclamou meio sobressaltada—e as joias que ela trazia na noite de Santo Antonio?... Onde as terá? Sim, já sei que ela me disse que as tinha na gavetinha do toucador.