—Senhora D. Amparo, ajuntou o conde com vehemencia, póde ser para mim o anjo salvador que me arranque do antro escuro em que me revolvo, conduzindo-me ao reino da luz e da felicidade; porque eu, qual judeu errante vagueando pelo mundo, necessito d'uma alma sensivel que me comprehenda, um coração bondoso que palpite com o meu e que se compadeça de mim. De que serve a mocidade e a riqueza? Preciso amar e ser amado. O bulicio do mundo não é sufficiente para distrahir a tenacidade do meu pensamento, a soledade da minha alma. Para{80} esquecer o passado necessito que comece para mim uma vida nova; é indispensavel regenerar o meu coração, porque não póde calcular a persistencia com que me persegue o infortunio. Um anno depois do meu desgraçado lance com Arthur a quem matei, estava na Italia, precisamente em Florença, no palacio de Médicis, defronte do grupo de Niobe onde a vi pela primeira vez...
O conde deteve-se, fez um brusco movimento com a cabeça, e exclamou:
—Só uma creança ou um louco seria capaz de entabolar similhante conversação; e talvez eu seja uma e outra coisa. Desculpe-me, minha senhora, e perdôe-me todas as loucuras commettidas esta noite; mas parto ámanhã, talvez que nos não tornemos a vêr mais, porque, já lhe disse, como o judeu errante percorro o mundo em busca de uma alma que me comprehenda, que se una á minha e que me dê parte da sua paz, da sua tranquillidade, da sua seiva. Ao vêl-a, disse: «É este o anjo que cubiço.» Mas creio-me indigno de merecêl-o; e já que o segredo do meu coração assomou aos labios, ainda que lh'o quizesse occultar, a senhora teria já comprehendido que a amo, e só me resta supplicar-lhe que não me guarde rancor por tanto atrevimento, e que me permitta antes de partir apertar-lhe a mão como amigo.
Se Amparo não tivesse verdadeira sympathia pelo conde, se não estivesse disposta a amal-o, necessariamente ter-lhe-hia parecido tão rara como incoherente a declaração que o conde lhe acabava de fazer.
Mas Amparo amava o conde, e não se enganava ao pensar que era amada por elle. Por isso, aturdida, trémula, com voz commovida e pouco firme, o olhar fixo no chão, extendeu a mão a Fernando e disse:
—Pois bem; se o senhor julga que depende de mim a sua felicidade, confie a meu pae, logo que elle volte, o seu segredo e partamos juntos para Hespanha.{81}
O conde soltou um grito, pegou na mão que Amparo lhe offerecia, e cobriu-a de beijos.
N'aquella noite o conde pediu a D. Ventura a mão da filha.
O honrado millionario mal poude dissimular a alegria que similhante pedido lhe causava. Era-lhe tão agradavel ouvir chamar á filha condessa!... Fraqueza por certo muito natural n'um homem nas condições de D. Ventura.