—Ovidio foi amado por uma princeza.
—Quase esqueceu d'elle ao vêl-o n'uma masmorra.
—Tasso foi amado por uma fidalga.
—Que lhe não mandou nem um simples coto de vela quando por sua causa estava no calabouço escrevendo, Jerusalem libertada. Mas tu só me dás dois exemplos. Olha, André, Cesar foi o primeiro da sua epocha, a grande figura de Roma, e comtudo, a sua mulher, Pompeya, preferiu-lhe um imberbe creançola, Publio Clodio, que se vestia de mulher para pôr ao conquistador do mundo, uma corôa que não era por certo de louro. Pobre Cesar! Como era calvo, a sua cabeça estava sempre ameaçada.
Os que assim matavam o tempo esperando o comboio, era um poeta a quem conheceremos pelo nome de Marcial e um pintor que se chamava André, ambos{81} amigos intimos de Ernesto e a quem este remettêra de Alicante um telegramma avisando-os da sua chegada.
Marcial e André viviam juntos n'uma mansarda da rua do Prado, tinham um creado para ambos e comiam no café Suisso.
O unico patrimonio de Marcial era a penna; a fortuna de André, os pinceis. Os dois amigos tinham passado a fatal epocha de bohemios e tanto Marcial com os seus dramas; como André com os seus quadros, ganhavam o sufficiente para viver bem e serem muitas vezes a Providencia de alguns companheiros.
Mas continuemos na gare, que não tardará que visitemos a mansarda da rua do Prado.
O agudo silvo da locomotiva annunciou aos dois amigos que o comboio entrava nas agulhas; deixaram, pois, a discussão e dispuzeram-se a abraçar Ernesto.
Effectivamente chegou o comboio, e n'elle Ernesto, que se lançou nos braços dos seus amigos.