—E o senhor o meu pintor. Mas repito que é uma loucura abandonar os recursos da capital quando a saude não esta sufficientemente restabelecida.
—Pelo contrario, senhor conde, é muito conveniente abreviar a minha partida.
Fernando encolheu os hombros conhecendo que Ernesto estava firmemente resolvido a sahir de Madrid.
—Não insisto mais, apezar de lamentar que nos deixe tão depressa, porque de amigos tão generosos, tão nobres como o senhor, é sempre custosa a separação.
—Senhor conde, antes de nos separarmos tomarei a liberdade de lhe falar com a rude franqueza de um homem que sempre foi dominado pelos impulsos do seu coração. Odiei-o de morte durante algum tempo. Então não conhecia o conde de Loreto mais do que de nome; hoje é diverso: tive occasião de tratar comsigo, de apreciar o que vale, e a minha alma, sempre generosa, arrepende-se de haver abrigado, ainda que por pouco tempo, sentimentos perversos. A carta que mandei aos jornaes não é outra cousa que o descargo da minha consciencia. Preciso, pois, partir e esquecer. O senhor sabe que amei Amparo, e tambem não ignora que ainda a amo. Tratou-me como a um bom amigo, e nada mais. Sei que são felizes, e que se amam muito. Uma imprudencia minha esteve a ponto de destruir toda essa felicidade, que não tem preço entre dois esposos. Reparei essa imprudencia e tranquillizou-se um tanto a minha consciencia. O passado será um sonho para mim, o presente, a soledade dos montes, até ao dia em que Deus queira apagar o meu nome do grande livro dos vivos.
Ernesto calou-se. O conde fixou n'elle um profundo olhar que demonstrava a admiração que sentia ouvindo expressar-se com tão nobre franqueza, julgando{128} inverosimil que na corrupta sociedade ainda se pudesse encontrar n'um homem um rival tão generoso.
—Vá, disse o conde, depois de uma pausa, parta, mas nunca esqueça que tem em todas as occasiões que precisar um irmão, em Fernando del Villar.
—Obrigado, senhor conde, não esquecerei o seu offerecimento. Peço-lhe me desculpe para com a senhora condessa, pois não me posso despedir d'ella, e que mande que uma das suas carruagens me leve a minha casa.
—Como! Partir sem apertar a mão a minha mulher, sem lhe dizer adeus? Não, senhor Ernesto. Julga porventura que sou um d'esses maridos zelosos e ridiculos que desconfiam da mulher a quem deram o nome? Julga-me capaz de lhe fazer a offensa de duvidar de si, o homem mais generoso que conheço, o melhor dos meus amigos? Não. Amparo virá despedir-se de si; peço-lhe que não deixe esta casa sem que assim succeda.
—Não insisto mais. Já que assim deseja despedir-me-hei da senhora condessa.