Amparo olhou o marido, receando que aquelle desejo envolvesse uma intenção pouco agradavel.

O conde sorriu-se porque comprehendêra a duvida da mulher. Mas rodeando-lhe a cintura, e, dando-lhe um beijo apaixonado, disse-lhe:

—Leio nos teus olhos, minha querida, a desconfiança, e sinto-o; isso indica-me que me amas muito, mas que me conheces pouco. Escreve a Ernesto, sou eu que t'o peço. Quatro palavras tuas far-lhe-hão bem, o desgraçado ama-te de toda a sua alma. Muito desgraçado o fizemos. Não sejamos egoistas até ao ponto de sermos malvados gozando com a sua agonia, com a sua dôr, que só terá fim com a morte. Escreve-lhe, pois, o que quizeres, Amparo.

O conde sorrindo-se com bondade, e dando segundo beijo na esposa, continuou:

—Não lerei o que escreves. Adeus. Quando acabares fecha a carta e entrega-a tu mesma a esse homem.

E o conde sahiu.

Amparo ficou com a carta na mão e como que pregada ao chão.

Aquella confiança que o marido acabava de mostrar era verdadeira ou um laço?

Amparo não podia crêr na hypothese de um laço n'um homem tão generoso como Fernando.

O conde de Loreto não era um homem vulgar. Amava a mulher, perdoára-lhe o seu coquettismo com Ernesto antes de o conhecer a elle, calculava as dôres e os soffrimentos do pintor a quem estimava devéras e por isso disséra á mulher que escrevesse.