—Pois bem, no meio d'essa nuvem vem o anjo da morte buscar-me. Oh! É mais bello do que eu o suppunha. Os seus trajes são brancos como o disco da lua, brilhante como a prata polida. Os seus olhos são negros e de um brilho raro. O seu rosto, pallido e cheio de bondade, sorri-se com um sorriso frio que penetra até a medulla dos ossos. Sobre a fronte lê-se a palavra Perdão, e os seus braços extendem-se até mim como para me receber. Ah! Se eu pudesse retratal-o!... Mas experimentemos. Dá-me a paleta e os pinceis! Põe uma tela no cavallete!
Ernesto apertava as mãos de Petra e Mauricio; mas subitamente soltou-os e dando um debil gemido, levou-as aos olhos e disse:
—Não posso!... Não posso!... Perdi a luz dos olhos!... Estou cego!... Amparo!... Amparo!... Amo-te como sempre!... Meu Deus!... Recebei-me!...
Os braços do pintor cairam sem forças, estremeceu todo o corpo, abriram-se-lhe e fecharam-se-lhe tres vezes as palpebras, e um debil suspiro se lhe escapou do peito.
Depois ficou immovel na cadeira e reinou o silencio frio da morte.
A alma do pintor abandonára a materia.
Ernesto já não existia.
Pobre filho do genio! Pobre sonhador que trocou a sua gloria, o seu futuro, por um beijo.
Mauricio e Petra ajoelharam junto da cadeira onde jazia o seu hospede, e com os olhos cheios de lagrimas, resaram pelo eterno descanço d'aquelle desventurado moço que tinha deixado de existir, e em cujos pallidos e entreabertos labios julgavam ver um sorriso triste, lamentoso, como a morte que lh'o produzira.{178}