Quando Ernesto se despediu, Amparo disse-lhe, apertando-lhe a mão e dirigindo-lhe um olhar cheio de doce esperança:

—Passei uma noite deliciosa. Estou certa de que sempre me lembrarei do Colyseu de Roma.

Para Ernesto aquella despedida foi uma promessa irmã da esperança, essa bella flôr que perfuma a alma.

[CAPITULO III]

Sonhos côr-de-rosa

Ernesto teve aquella noite um sonho côr-de-rosa, porque a bella Amparo foi o anjo do seu sonho.

Os homens de genio e sobretudo os pintores, quando pensam no amor, antes de amar, criam um typo perfeito como todas as sublimes creações da imaginação; uma d'essas mulheres de extraordinaria belleza cheia de luz, sem um senão no moral, sem um defeito no physico, perfeita de corpo e d'alma: mas quando chega o momento de, ou cançados do celibato, ou para pagar esse tributo de que poucos se salvam, chamado matrimonio, se decidem a casar, então já é outra cousa, pois muitas, mesmo muitissimas vezes a poesia se incarna na prosa, e depois... Satanaz toma parte activa na symphonia do matrimonio.

O amor é cego, e os homens e as mulheres devem resignar-se a não vêr bem, precisamente quando deviam ter olhos de lynce.{18}

Ernesto levantou-se alegre e cantando a symphonia de Guilherme Tell; e pensando em Amparo pegou na paleta e poz-se a pintar no seu quadro.

A filha do D. Ventura tinha-se photographado d'uma maneira tão profunda na sua imaginação, que o pintor achou sem saber como que uma das figuras do seu quadro tinha grandes parecenças com Amparo. Admirou-se, mas agradou-lhe ao mesmo tempo.