O pintor era novo, elegante, bem parecido, com uma educação pouco vulgar, e pelo menos era-lhe sympathico.

Como ha sempre algum egoismo no coração da mulher, Amparo pensou que continuar a sua viagem pela Italia acompanhada de Ernesto tinha muito mais encanto, era mais divertido do que viajar sósinha com o pae.

Amparo não pensou senão em si. Com algum conhecimento mais profundo da vida material dos artistas, isto é, a prosa do talento, teria pensado que talvez Ernesto não se encontrasse em condições de emprehender{21} uma viagem em carruagem de primeira classe, e installar-se n'um hotel de luxo.

É bem certo que Amparo ignorava o valor do dinheiro: gastava o do pae, que era rico, sem se preoccupar com o valor que tem um duro[[1]] para quem não possue vinte reales.

Por outro lado Ernesto, um verdadeiro artista, sonhava que era um principe e julgava os seus sonhos uma realidade... Era mais ambicioso de gloria do que de ouro.

Quando acceitou a projectada viagem por Amparo, sem pensar se o dinheiro que possuia por sua unica fortuna chegaria para occorrer a todas as despezas, só pensou na felicidade de viajar com aquella mulher formosa, por uma terra encantadora, cujo céu azul e o perfume das brisas são o orgulho das filhas de Toscana, a admiração dos estrangeiros.

Combinada a partida para quatro dias depois, Ernesto apresentou a aguarella do Colyseu, que arrancou um grito de admiração e muitos olhares de agradecimento a Amparo.

O pintor regressou a casa já bastante tarde, tão alegre, tão feliz, que não teria trocado a sua existencia por cousa alguma d'este mundo.

A felicidade está ás vezes em tão pequenas cousas!... O pobre artista julgava-se amado, e começava a amar com toda a sua alma virgem e apaixonada.

Quando chegou a casa, pegou n'uma folha de papel para fazer o orçamento das suas despezas.