—Tem seis quadros de comestiveis, quatro pequenos de costumes hespanhoes, e dois de flôres. Fico com os doze, pois tenho probabilidade de os vender a um inglez que me encarregou de comprar alguma cousa n'este genero, e dou por elles quatrocentos duros.
—É pouco dinheiro.
Daniel encolheu os hombros.
—Não dou mais, respondeu; é impossivel.
—Dou-lh'os por doze mil reales e creia que ainda ganhará uns duzentos por cento.
—N'estes tempos não é possivel. Desde que a photographia póde offerecer o fac-simile de uma obra-prima por um franco, a pintura perdeu muito.
—Senhor Daniel, concedo-lhe o direito de regatear o preço de um quadro, de dizer que é mau sendo bom, mas não lhe consinto que ponha a photographia a par da pintura. Poderá ter-se uma copia do Ticiano estampada em um boccado de papel por dois reales, mas não se terá Ticiano, nem pela photographia se poderá nunca formar uma ideia, ainda que vaga, do que vale o citado auctor.
Daniel fez um gesto de indifferença, o ajuntou:
—Sabe que tenho em muita consideração os seus trabalhos, e que se não estivesse tão occupado, o encarregaria de algumas copias, e isso deve inspirar-lhe confiança para crer que não procuro exploral-o. Quem sabe se terei quatro ou mais annos armazenados na loja esses doze quadros que pretendo comprar. E se assim succeder, o senhor bem sabe que dinheiro vale dinheiro, e isso representa uma grande perda.
Ernesto comprehendeu que o judeu não lhe daria mais, visto conhecer a necessidade que elle tinha do dinheiro.