D. Ventura alugou todo o rez-do-chão, com o direito de lhe pertencer o jardim plantado de laranjeiras, limoeiros e grandes acacias.

O rez-do-chão compunha-se de um quarto com janellas para o jardim, uma sala grande, um quarto de vestir, uma casa de jantar e uma sala. Amparo installou-se em dois quartos. D. Ventura e Ernesto ficaram com a sala e outro quarto contiguo á casa de jantar; a sala declarou-se terreno neutral e todos podiam dispôr d'ella para o que necessitassem. Era o ponto de reunião dos nossos viajantes.

O senhor Rosales, dono da casa, era um sujeito muito amavel e serviçal. Disse-lhes que tinha sempre muitos bons hospedes; que o primeiro andar estava todo alugado ao sr. Conde de Loreto e ao seu velho mordomo; que no segundo estavam varios portuguezes e que era tão apaixonado das cousas de Hespanha, que mandava vir grão e chouriço hespanhoes, para que quando algum hospede quizesse de vez em quando comer rico cosido madrileno, podel-o servir.

D. Ventura esteve quasi a abraçar o seu hospedeiro, porque como bom madrileno começava a sentir a falta d'aquelle manjar predilecto.

Emquanto a Amparo acercou-se da janella do gabinete, viu o formoso céu de Florença, aspirou o perfume das laranjas e dos limões, exclamou:

—Oh! que delicioso cheiro! que bem que ficamos aqui!

A alegria de Amparo reflectia-se no coração de Ernesto.

No primeiro dia entretiveram-se os nossos viajantes{32} em arranjar itinerario. Ernesto propoz visitar na manhã seguinte o palacio de Médicis.

Em Florença o céu tem sempre luz, doçura, poesia. Os nossos viajantes levantaram-se, dispostos a emprehender o seu passeio. A manhã não podia estar melhor, o céu mais azul.

Como não necessitavam de cicerone, porque Ernesto conhecia Florença tão bem como Roma, sahiram em direcção ao celebre palacio de Médicis.