Sentou-se n'um commodo divan, e começou a saborear o delicioso charuto.

Proximo do sitio em que se achava o conde, fumavam quatro rapazes, conversando em voz alta.

Nenhum d'elles reparára, em Fernando.

—Desengana-te, Heitor, dizia um d'elles, o teu cavallo está muito longe de ser o que é a egua do hespanhol, e o arabe de lord Rutheney.

—Pois apezar da tua opinião, respondeu com voz alterada Heitor, garanto-te que se o meu jockey não tivesse sido um parvo, ganhava o primeiro premio.{68}

—A ti succede o mesmo que a Marco Antonio quando os seus gallos iam combater com os de Octavio Augusto, que perdia e para consolação á sua pouca sorte arranjava sempre uma desculpa. O cavallo de lord Rutheney levava ao teu mais de vinte metros de avanço. Emquanto ao do hespanhol não se fala, esse não era um animal, era um raio: nem mesmo o vento corria mais do que elle.

—Os hespanhoes, respondeu Heitor, em tom desdenhoso, têem nas veias um sangue mixto de godo e arabe, e não é para estranhar que saibam dar vantagens aos cavallos nas corridas. O conde de Loreto parecia um cigano correndo d'aquella maneira.

Fernando ao ouvir estas palavras, pôz-se de pé e pallido, com o olhar turvo e ameaçador, dirigiu-se para o grupo que falava de si e encarando o que acabava de falar, disse-lhe:

—O conde de Loreto sabe correr como um cigano e bater-se como um cavalheiro.

E dizendo isto, atirou uma luva ao rosto de Heitor, que se lançou sobre o seu antagonista.