A dôr do mordomo era tão profunda, tão verdadeira que ao entrar o creado para o serviço, nem sequer deu pela sua presença.

O creado que servia seis quartos do corredor do segundo andar era um rapaz tão diligente como desembaraçado, e ao vêr o profundo pesar do velho creado do conde e que este sahira tão cedo, acompanhado de dois amigos, suspeitou tudo, mas em vez de dirigir a palavra a Francisco, julgou que era mais conveniente confiar as suas supposições ao hespanhol que occupava o quarto n.º 14, intimo do conde de Loreto. Assim, dirigiu-se para o quarto de D. Ventura e chamou-o.

D. Ventura ainda não perdera o costume de madrugar;{72} estava levantado e disposto a barbear-se. Abriu a porta, julgando que fosse o conde a propor-lhe algum passeio para aquelle dia, e encontrou-se com o creado e o seu eterno sorriso.

—Que ha? perguntou D. Ventura.

O creado falava, ainda que mal, o hespanhol, mas o sufficiente para se fazer comprehender pelos hospedes.

—Cavalheiro, disse elle, sei que sou um tanto indiscreto e importuno batendo tão cedo á porta de um hospede...

—Bem, bem. Que é? perguntou D. Ventura.

—Mas sei tambem, continuou o creado, que o senhor é o amigo intimo do senhor conde de Loreto.

—Sim, homem, sim, acaba.

—Pois bem, o senhor conde deve correr algum perigo, porque o vi sahir acompanhado de dois inglezes; e o mordomo do conde assim que elle sahiu, pôz-se a chorar amargamente. Não quero equivocar-me, mas julgo que o senhor conde vae bater-se.