E se me arrastava á janella, para aspirar um pouco{38} de ar puro, a mesma pergunta me desabrochava nos labios calcinantes como flôr venenosa:
Por que o amou ella n'outro tempo? Que ella o amou, já m'o disse; foi por elle tirada á familia que a não queria ligar a um homem sem posição e sem riqueza. Enriqueceu depois, por que é energico e paciente. Sabe querer. Mas por que o amou ella? E, depois, por que me ama ella hoje a mim? Somos tão differentes um do outro!
Um dia, finalmente, á força de moer n'esta ideia, e joeirar-lhe no espirito os venenos todos, julguei que ia penetrar o proceder de Fanny. Lembrando-me quanto ella era sensivel ás caricias; figurando-me as scenas mais deleitosas do nosso amor, e comparando-me ao marido, invergonhei-me e alguma coisa mais acre que o desgosto, mais amarga que o despreso, mais peçonhenta que o odio, me subiu do coração aos labios.
—Ora ahi está por que ella me ama hoje—me disse eu sacudindo a cabeça. Veio depois auxiliar-me a analyse mais uma vez, mas para ferir-me covardemente com uma nova punhalada.—Ama-me para variar—disse eu amargurado—para satisfazer, um contrario exagerado, um desejo mais sentimental, mais delicado. A não ser para completar o seu ideal... accrescentei eu sem reflectir na crueldade da supposição.
Mas em tal caso—grito eu com terror indisivel—eu não sou para ella mais que metade d'um homem! Encho apenas metade d'um coração! Fui medido. Acharam-me incompleto. Sou escassamente uma addição! Não passo d'um complemento.{39}
XX
Algumas vezes fugia de casa como d'um carcere, e ia espairecer minhas interminaveis meditações na multidão que peja os passeios. Achando-me entre pessoas felizes, indifferentes, occupadas; saboreando, a meu pezar, os primeiros effluvios balsamicos da primavera, cessava de julgar-me tão absolutamente miseravel, e classificava de creancice as mais monstruosas hallucinações—É o ciume—dizia—que me torna absurdo. Encontrando a cada passo tantas mulheres bonitas, elegantes, pelo braço de cavalheiros, os quaes com ar de aborrecidos, volteam os olhos em deredor, e escassamente lhes respondem, accrescentava eu:—Quantas mulheres habitam sob as mesmas telhas com seus maridos, sem repararem n'isso! Ao cabo de quatro annos de intimidade, o marido converte-se em amigo, e nem sempre! É de toda a gente, menos de sua mulher...
Mas logo vinham as duvidas a mortificar-me, cada vez mais pungitivas, e eu debalde a repelil-as de meu espirito. Que farte me conhecia eu para saber que não poderia jámais adquirir o espirito de conformidade com o meu seculo que permitte ao amante d'uma mulher cerrar a mão de seu marido,{40} amigo só que seja! Além d'isso, eu não queria cortejar esse dominador, nem ajustar-me aos seus caprichos, nem tornar-me para elle o homem indispensavel. Eu vaticinava—se as suspeitas alguma vez o molestassem—quantas semsaborias me seria preciso fazer, quantas mentiras engenhar, quantos desgostos e aviltamentos supportar para destruil-as. E para aviltamento já bastava! D'aqui avante não passo—protestava eu—já é de mais o lamaçal do meu caminho.
Mais cançado e inquieto que na sahida, voltava para casa. Os sorrisos da primavera faziam-me vontade de chorar. A mornidão da atmosphera ingravecia-me no cerebro os pensamentos. O espectaculo, e sussurro das multidões ao longe, tornavam ainda mais incomportavel o silencio da minha soledade.