—E se tu quizesses—continuei, fitando-a internecido—se quizesses!... Não haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te peço é ser eu só o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me por ti eu só, preparar, suavisar sob os teus pés a vereda do futuro; ser só a amar-te; o que eu quero é ser para ti o meio e o fim da felicidade; é tomar sobre mim todas as penas, e dar-te em troca todos os meus sonhos, prazeres, e felicidades; o que eu quero é ser a um tempo teu filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua cabeça querida as mais dôces e solidas affeições, é concentrar em ti as lembranças do passado, as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de modo que venhas a ser toda para mim, e que não haja na minha vida inspiração que não seja tua, que não proceda de ti, que não sejas tu! Se tu quizesses... Não ha ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pódem emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da felicidade que é a vida? Em meus sonhos,{70} muitas vezes me figuro que somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma solidão, onde, sob um céo azul sempre, á sombra d'arvores sempre veridentes, á beira d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flôr, ahi, nos saboreamos por nós mesmos, como se a nossa dupla existencia mais não fosse que uma palpavel recordação. Que desgraça poderia ferir-nos ahi? que inquietações assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume contristar-nos na felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses... Seria pouco para mim amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada? procurar incessantemente debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus olhos azues? escutar-te muito tempo o halito a brincar-te por entre os labios? dormir com a boca presa á tua espadua, a mão inlaçada na tua mão? vêr-te todos os dias, andar, ir, voltar, mais bella, mais tranquilla, mais graça que o sonho das virgens? Ouve mais: não seria nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o coração das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do qual me estorço ha tanto tempo? teres-me dado tu só mais felicidade do que homem na terra póde cobiçar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te diria: «amo-te!... se tu quizesses!...»

Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de prazer. Inclinada para o hombro a cabeça, cahidos os braços, as palpebras descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que não queremos perder nada, arrobada n'um extasis que reunia todas as sensações e quebrantos. Arfavam-lhe{71} as rozadas azas do nariz; suaves respostas inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convulções electricas lhe crispavam a cutis; tremiam-lhe as mãos em vibrações dulcissimas. Já não poderá conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu pescoço que ella cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle!

«Não se falle mais n'isso—disse ella, com expressão de angustia, recuando a face, e apertando-me a fronte com a mão—Isso faz-me um grande mal. Querido Roger, o sacrificio, que queres fazer, é egual ao que me pedes. A felicidade debuxada por tua boca persuasiva é o mais bello sonho dos meus encantos; mas, ai! não passa d'um sonho! Meu Roger, amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade de mim, não falles assim mais!

XXXV

Não me dei por vencido d'aquelle grito de desesperação que me revelava, ao mesmo tempo, aspirações ardentes, e dôres mysteriosas. Nenhum de nós nesta affectuosa discussão, havia empregado os verdadeiros argumentos. Um tanto satisfeito por expôr a suprema questão da minha vida áquella que devia resolvêl-a, deliberei deixal-a reflectir, para pouco{72} e pouco a ir affazendo. Esperava azo propicio para reluctar e vencer a minha adorada inimiga.

Depressa veio o ensejo. Terrivel e imprevisto era elle: havia ahi uma só alternativa: vencer os extremos escrupulos de Fanny, ou perdêl-a para sempre.

XXXVI

Fanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me de interrogal-a, e fiz que não dava fé da sua turvacão. Acariciou-me vivamente, e eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios aos affagos. Houve um instante em que um e outro esgotamos as palavras ociosas. Tinha Fanny a cabeça inclinada sobre o meu braço, e eu, todo attento no rosto d'ella, em muda anciedade a estava contemplando. Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a respiração suffocada; aos meus olhares interrogadores respondia o descahir das palpebras, e o voltar os olhos, córando.

Tomei-lhe a mão sem dizer palavra. Apertou-m'a com força febril.

«Falla em nome do céo!» disse-lhe eu empallidecendo.{73} Abraçou-me convulsamente, aconchegando-me o peito da face d'ella.