—Meus filhos!—exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma despedaçadora angustia. E pendurava-se-me do pescoço, fitando-me os olhos penetrantemente—Meus pobres filhos, tão creanças! Pensas tu n'isto? Tu que és bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe?{75}
Immediatamente comprehendi pela commoção que me estorcia o animo, que quanto d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia, senti um surdo protesto subir-me das entranhas em gritos de indignação. Eu mesmo, no secreto de minha alma, não queria esse monstruoso abandono de mãe, nem mesmo o covarde desamparo d'um marido por sua mulher que adorava.
Mas, confessal-o-hei?—não me instigava tanto á lucta o desejo de passar a minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu senti, abraçando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a perder que com a idéa de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado de mim, dôr nova para ajuntar a tantas, disse comigo mesmo:
«Aqui ha mais ciume que amor.» Entretanto, mais tranquilla, mas sempre affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia sósinha. Escutei-a.
«Se eu ousasse... se eu não temesse mortificar-te...
—Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. Já agora, não ha nada ahi que possa fazer-me mais desgraçado.
Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida:
«Pois bem! eu não tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso d'elle está no meu dote.
—É isso só? deixa-lhe tudo o que tens. Não sou eu bastante rico para nós ambos?{76}
«Não é isso! não é isso!—disse ella, meneando a cabeça.