—Que segnifica tudo isto?—perguntei eu, caminhando ao longe do muro para encontrar a brecha por onde eu passára duas vezes. Mas apenas puz o pé no jardim, fiquei como pregado no chão. Estava ouvindo imprecações e soluços; do pavilhão, a vinte passos de mim, é que elles sahiam.
Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos arbustos, sob as quaes me escondera.
Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade; de certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu não tinha ouvido. Ao chegar defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a portinhola. Tinham cessado os gritos e os soluços. Sahiu um homem do pavilhão, e fechou-se a porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser? Assentou-se nos coxins, o creado subiu para a almofada, o cocheiro picou os cavallos, a sege passou a grade, rodou sobre a calçada sonora, e a grade foi fechada pelo creado de farda que estava ao pé.{95}
Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo, avancei precipitadamente, sem precauções. Antes, porém, de levantar o trinco da porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilhão estava uma meza redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria um amplo divan; e deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com a face entre as mãos, dando soluços de rasgar o coração, era ella! Fanny! ella! Entrei precipitadamente abri-lhe os braços, e lancei-me de joelhos a seus pés.
Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me a cabeça entre os braços, e abafou-me contra o seio. Eu não podia fallar nem respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face, mordia-os para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabeça e eu senti cahirem-me lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se agitavam sobre os meus vertiginosamente, e suas mãos palpitavam por sobre meus hombros, face, pescoço, em phrenetica inquietação. Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada de dôr tirou por mim, e arrastou-me na quéda sobre o divan. Ergui-me. A partida do marido, e as lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, fiz quanto pude por chamal-a á vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se. Caminhei para Fanny ás apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do vestido, e tirei-lhe a pedaços o colete. Depois, á força de caricias, rogos e orações, aquecendo-lhe as mãos com as minhas, e bafejando-a com o meu halito ardente, consegui reanimal-a. Soltou um longo{96} suspiro, e ergueu-se amparada nos meus braços, e parecia reflectir. Torrentes de lagrimas lhe rebentaram dos olhos, e lançou-se a mim com tanto amor, e com ar de tanta piedade, que eu, a soluçar tambem, a comprimi ao peito.
—Oh! Roger! meu Roger—exclamou Fanny com a voz entrecortada—se soubesses que desgraçada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh! que bem me faz o chorar sobre o teu coração... Meu querido Roger!
Os soluços embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se explicasse. Eu não sabia ainda que dôr podia ser esta, que rompia em gritos de indignação.
—Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabeça negativo, e respondeu:
«Não, não é isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraçada, a mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio, as infimas mulheres não são mais desgraçadas que eu!
A este grito, que lhe fugia do peito não tinha eu que oppor. Fiquei estupido e estupefacto. Não achava palavra que lhe dissesse. O que eu fazia era abraçar convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de luminosa previdencia me esclareceu o espirito.—Se não aproveito esta occasião para confessal-a, nunca saberei nada—dizia eu commigo. Tranquilla deste lance, nunca mais fallará.