Amei-a perdidamente, e assim a amo ainda. E ella... amava-me como sabia amar, com interior reserva, calculadamente. A naturalidade do seu ar acanhava-me. Ainda quando me apertava em seus braços com transporte, parece que me distanciava de si. As rainhas e imperatrizes devem amar assim os seus amantes. Foi por isso que eu, desde o principio, soffri, e vim até este extremo em que me vêdes.
Como eu quizera passar com ella os instantes todos{10} da minha vida, procurava todas as occasiões de encontral-a. Não podia contentar-me com as duas horas que ella me dava de cada semana. Eram tantos os seus encargos domesticos! E eu imprudentemente a perseguia por toda a parte, ficando muitas vezes horas inteiras, com o rosto ao vento e os pés no gêlo, só para vêl-a, passar, graciosamente encapuzada no capuz de sêda côr de rosa, atravez do vidro de sua rapida carruagem. Todas as noites, com o coração angustiado, errava eu, por entre os nevoeiros, debaixo de suas janellas luminosas, ou, rebuçado e confundido com a gentalha, lhe expiava a saida do peristylo do theatro dos italianos; ou, encostado á couceira de uma porta, a esperava longo tempo para vêl-a entrar no baile, com os cabellos enlaçados de flôres, as espadoas nuas até aos seios, e então observa se o «corpinho» de setim branco tremia sobre a pressão anceiada de seu peito, quando me via. Custava-me a não me ajoelhar aos pés d'ella, quando a cortejava respeitosamente.
Ahi, no baile, n'esse ambiente pesado e saturado de acres perfumes, sob os raios deslumbrantes que irradiavam como flechas do coração dos lustres, eu a contemplava movendo-se graciosamente. Seguia-a com os olhos, encostada ao braço d'um ancião cravejado de medalhas, que a denominava affectuosamente pelo seu pronome. Distinguia-se entre todas, quando, de fronte soberana, e pisar magestoso, circulava por entre os grupos. Contemplava-a ainda, quando meio recostada ao espaldar d'uma cadeira ampla, cortez sem frieza, acolhia os preitos dos mancebos graves; ao passo que, unida ao hombro{11} d'um walsador infatigavel, immovel a cabeça e o tronco, redemoinhava em ondas de gaze e rendas, aos accordes melodiosos das flautas e violinos. Coruscavam-lhe então os olhos como estrellas, sob as flôres que se desinastravam das espiraes dos cabellos. Desjunctavam-se os labios para se verem as perolas dos dentes. Purpureavam-se-lhe, como ao contacto dos meus labios, as faces pallidas, e as alvas espadoas.
E a cada rodopio, a ponta do pequenissimo pé, mostrava-se á orla do vestido que a rapidez do movimento fazia recuar. Mas nem as seducções das homenagens, nem as excitações da walsa, nem a minha mesma presença, conseguiram excital-a! Com semblante alegre tudo acolhia com tranquilidade egual de aspecto. Isto, mais que as sollicitações do olhar, turvava e empallidecia aquelles, cujos olhos encontravam os d'ella. Com tudo, nunca lhe surprehendi essas maneiras meio-zombeteiras e seductoras que são a falsa linguagem da lucta de um coração abalado com um espirito indeciso; maneiras que desfarçam e colorem as concessões, e irritam a esperança sem desanimal-a.
Mas como é que a presença do seu amante a não perturbava nunca? Bem podia eu fital-a até cegar na fixidez do olhar, que ella parecia não me vêr nunca.
Era mulher até ás pontas dos cabellos!{12}
III
Chegava emfim o dia suspirado! Erguia-me de madrugada, e todo me dava ao infantil prazer de arrumar eu mesmo o meu quarto. Decorava-o de novas flôres; baixava os transparentes de brocatol côr de rosa, enramalhados de flôres, a fim de quebrar com suavidade o brilho da luz, que os coloria magicamente. Refegava artisticamente os cortinados de cassa e alizava com as mãos o tapete de cadarço do meu leito. Regulava o relogio, cujo pendulo tão moroso então me parecia. Sobre um bofete de páo das ilhas, dispunha em bandeijas chinezas, dôce de fructa, pastelaria, e em roda calices de Bohemia, e alguns frascos empoeirados de Marsalla. Mandava o creado passear até á noite, e ficava eu senhor absoluto do meu elegante recinto. Ahi todo me agitava livre como a ave entre ramagem dos bosques desertos, arredondando e brunindo com o peito inquieto o dôce ninho dos seus amores.
Que cuidados me não dava o prevenir os menores desejos da mulher que eu estremecia! com minhas mãos pregava os alfinetes no pregador de veludo. Tirava do estojo de marroquim escarlate o pente de dentes escamosos que ella usava para alisar os cabellos descompostos pela pressão de meus{13} dedos tremulos. Atiçava o dôce fogo que se avermelhava entre as cinzas. Aproximava do fogão a cadeira d'ella; trazia do divan a almofada em que ella punha os pés, e eu os joelhos, na attitude dos devotos contemplando seu idolo. E quando estava assim disposto tudo, quando o ponteiro d'ouro, avisinhando-se do numero escolhido, parecia dizer-me: «Vais ouvir soar a hora de teu prazer,» mais inquieto e agitado que nunca, ia eu pé ante pé, da porta á janella, como vae e vem o cão fiel, atormentado pela impaciencia, adivinhando o andar de seu dono.
E eu dizia comigo: «A esta hora, tambem ella lança a furto os olhos ao seu relogio. Sabe que a espero. Agora, deante do espelho, aperta na barba o broche da capa de veludo. Incaracola os cabellos rebeldes sobre a fronte pura. Involve as espadoas no chalé escuro, e aperta-o sobre o peito com o alfinete de camapheu. Veste as luvas, e irrita-se. Sobre os olhos negros accumula as dobras do véo tambem negro. Atravessa as salas desertas. Passa. Roda a chave. Sae. Desce. Corre cozida com as casas. Vou vêl-a!