Pela primeira vez na minha vida, fui homem. Por mim, e só commigo, fiz quanto cumpria para descobrir a verdade. Comprei, com um pseudonimo, a casa contigua á de Fanny. Instalei-me secretamente lá. Todo o dia, cosido com as portadas das janellas, escutava os menores rumores da casa visinha, e via tudo que lá entrava, como se estivesse á espera de vêr algum estranho entrar ahi a roubar-me a mulher que me era a vida. De noite, escoava-me através da sebe de arbustos que separavam os nossos quintaes, e andava debaixo das janellas de Fanny, como ladrão que estuda o edificio que quer assaltar. Assim apprendi os costumes da familia que eu espionava. O erguer, o comer, o deitar, sabia tudo. Via de manhã os creados abrirem portas e janellas, e ouvia o roedôr dos moveis, deslocados na limpeza dos quartos e da sala. Ás oito horas, o dono da casa descia ao jardim, onde encontrava os filhos. Ás nove apparecia Fanny em desalinho campestre. Dava com elle alguns passeios. Ás onze horas chamava a campainha ao almoço. Ao meio dia, esperava o coupé á porta. O marido sahia, e só voltava ás sete horas para jantar. Muitas vezes, depois do meio dia, vi Fanny assentada na raiz d'uma arvore enorme, que assombrava largo{132} ambito, conversar com os filhos, lêr, ou occupada em algum trabalho de agulha. As visitas eram numerosas. Das tres ás seis horas, quando estava bonito o tempo, circuitava o grande taboleiro de relva, longa fileira de trens, cujos cavallos escarvavam na areia, á sombra das arvores, sacudindo os freios, a tempo que os bandos de senhoras e cavalheiros, assentados em cadeiras de bambu, riam, e bebiam gelados. Ao intardecer sahiam todos, e os homens faziam caracolar os cavallos á portinhola das carruagens, ou reunidos atraz dos trens, caminhavam lentamente fumando os seus charutos. Fanny recebia-as com uma graça incantadora: variava muito de vestidos, e da minha janella via eu que as mulheres examinavam detidamente os seus deliciosos enfeites, ao passo que ella, parecia descuriosa de si, como se sempre estivesse adornada, sem o saber. Raro sahia de noite, se o calôr não era ardente. O marido passeava então com ella; mas ordinariamente tornava para Pariz ás oito horas, e quando tornava, era por alta noite.
Nos dias em que nos uniamos em Pariz, Fanny entrava no coupé com o marido.—Qual de nós é o enganado?—dizia eu commigo. Eu montava, e por travessas, e a galope, chegava a minha casa primeiro, e ahi era tão pouco preguntador quanto ella era meditativa. Era-o em toda a parte, em sua casa como na minha. Ao mesmo tempo, os passos do marido, mandava-os eu espiar. Nunca ia senão ao club, e a casa da amante. Aqui pernoitava algumas vezes. Fallava n'isso francamente aos seus amigos, e continuava a mostrar-se prodigo com ella em demasia.{133} Era um homem prefeitamente feliz. Não o attribulavam suspeitas nem inquietações: rico, pae de galantes filhos, uma mulher adoravel. Que lhe faltava? Eu invejava-o.
Mas não me bastava assistir á vida exterior da familia, cujos segredos eu queria conhecer. Ao cabo de quinze dias, vendo esteril a minha espionagem, cancei-me da futilidade d'ella. Obtivera apenas o direito de suppor que Fanny cumpria a palavra, por que o marido, passeando com ella, parecia exclusivamente entretido com os filhos. Além disso, a frequencia das visitas que ella recebia, estorvava-me de vêl-a concentrada em si, tanto quanto eu queria. Resolvi introduzir-me em sua casa, sem o ella saber. A frieza, com que me estava tractando, era assustadora. Distrahida sempre. Muitas vezes, com terrivel commoção, de longe a via, quando se julgava sósinha, cahir sobre um banco, e esconder n'um lenço, o rosto lavado de lagrimas. Em oito dias, centuplicaram as minhas suspeitas.
LXVII
Por uma bella noite de agosto é que eu executei o horrivel designio, cujo exito devia decidir do meu destino. Não sei que hora era; mas, havia muito que as estrellas radiavam na face do céo a{134} sua suave claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa contigua á de Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela rampa; pendurei-me do varão sutoposto á baranda da casa visinha; fixei um pé na goteira da sacada, depois o outro pé, e saltei. Estava em casa d'elles.
Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas precipitadas pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada como um grande quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta janella não estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se, mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca, pendentes diante das vidraças, deixavam-me vêr todo o quarto através d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos.
Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre este, uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro que contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um tapete estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá, mas eu não reparei. Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz, que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como{135} quer que eu me chegasse á vidraça para examinar se elle estava occupado, uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas cortinas brancas. Pulsou-me o coração mais rijo. Agachei-me rente com a sala, recuando um pouco.
Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de agosto, suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não sentia, não investigava senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os olhos á entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse para mim coisa extraordinaria vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha os pés nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos encontros uma larga calça branca de flanella. Despeitorado, arregaçado o colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O outro braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos beiços o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim.
De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado, collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso{136} da minha razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella trazia.
Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste n'aquelle momento!