LXVIII
Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri as mãos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua extenção; tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva glacial. Á custa de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava com o coração, com a alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir até ella, como? Pendurei-me na rampa, e deixei-me cahir ao jardim. Rodiei vinte vezes a casa, empurrando todas as portas; mas a minha fraqueza não podia com ellas. Finalmente, atirei-me ao chão, e ahi, com o rosto entre as mãos, desafoguei-me em soluços.
—Trahido! trahido!—bramia eu, com monotonia desesperadora.—E o céo impassivel!—De subito ergui-me, e, sem idéa fixa, atravessei as trévas, rapido como se me viessem perseguindo assassinos.{141} Precorri a tapada; saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a correr sempre, com a cabeça nua, chorando e fallando sósinho, atirei-me como um attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos flancos.
Onde ia eu? não sabia. Fugia áquelle espectaculo. Salvava-me a todo o correr, para o mais longe possivel, para não vêr a imagem horrenda que me ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e excitava a fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto de suor e lama, e corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa. Lancei-me desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os meus vestidos a pedaços, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no peito, raspavam-me a face e os hombros os tojos lacerantes; parava a chorar e depois caminhava. Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que resoavam sob os meus passos; campos cultivados, cujas searas me ondulavam nas pernas como vagas; collinas, bosques, regatos, atalhos, estradas que desfilavam á roda de mim, como se o solo fosse arrastado commigo no arremeço d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a respiração, e eu corria ainda, chorando, chorando sempre.
—Ó minha mãe!—bradei eu.—Se soubesses quanto eu soffro!
De repente, achei-me com os pés em agua. Ante mim, distendia-se um vasto espaço negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com grandes e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo argentino, sobre esta superficie{142} luzente, parecia serpente enorme assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei tropeçando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida, embargavam-me o passo. Horrida tentação me assaltou. Contemplei o céo sereno, onde brilhava, entre nuvens immoveis, o dôce astro dos amantes; puz a mão sobre o coração, e caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas sentia sempre o chão lodento em redor dos meus pés que escorregavam. Não podia mais. Vergado á fadiga e á commoção, soluçando como as mulheres, cahi, e fui arrastado na torrente que marulhava em sua marcha obscura.
LXIX
O que decorreu depois d'isto, não sei.
Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante. Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.
Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo, desde a cabeça aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem, e tomou-me{143} o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer. Isto durou muitos dias.