—E ela? insistiu André.{24}
—A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa alguma desde o atentado de Ficschi. O vestuário preocupa muito pouco esse velho papa-moscas. Quando sente passos no pátio, foge para casa a sete pés; se batem à porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e só se decide a abrir ao cabo de um quarto de hora. Se lhe entregam uma carta, fica verde como um afogado. Ora diga-me se é possível que um cristão honrado tenha semelhantes sustos?
—E ela?
—Ela?... Deve confessar-se que é uma criatura bem ageitadinha, desembaraçada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um pintassilgo, chilreando desde pela manhã até à noite!... Mas, apesar disso, ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o pai Germinal apenas tem seiscentos francos da pensão de reforma, e, se não fosse a filha, havia de custar-lhe a passar a vida.
—Mas, disse André, linda como ela é... sim, pareceu-me bonita!...
—Isso lá!... é linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a porteira.
—É verdade, disse André tentando sorrir, e... deve ter muitos namorados?...
—Ora, pois não! Aquilo tem um juízo... uma seriedade! Quando sai à rua podia... vadiar o seu{25} bocado, requebrar-se, dar ouvidos a lerias, mas... não senhor! compradas as provisões e entregue o seu trabalho, volta para casa de corrida, e só trata de divertir o velho maroto do pai, que então fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum remorso tivesse a pesar-lhe no estômago!
—Que espécie de gente costuma receber?
—Gente?... em casa dele!