—Ora... uma bagatela!
—Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem à noite; reconheci-o à luz de um bico de gás, quando atravessava para a rua dos Mártires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrás de si, mas as minhas pernas já não são setas, e cheguei justamente a tempo de receber com a sua porta na cara. Não eram horas para visitas. Tomei o numero da casa, e eis-me aqui!
—Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no atelier.
Pedro Toucard entrou, com o chapéu à banda, bamboleando-se e retorcendo com afã uma das pontas da sua barba grisalha. Começou reembolsando o pintor da módica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais à vontade. instalou-se como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma familiaridade cada vez maior.
Num volver de olhos, inventariou a mobília e permitiu-se fazer um trejeito de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a examinar vários{60} esboços; fez careta a uns, e sorriu para outros com ar aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas à parede, e descobriu sucessivamente uma, duas, três, quatro cabeças de mulher... sempre a mesma, com olhos negros e cabelos louros.
—Bravo! exclamou ele.
—Que temos? interrogou André descontente.
—A virgem do jardim! Sim, senhor!... Não é digno de dó, meu amigo... porque naturalmente é correspondido!
—Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada sem-cerimónia, estou com pressa; tenho um negócio urgente, e se lhe não sou já preciso...
—Não vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com mil bombardas! e é por isso que me interesso no que lhe diz respeito. Além de que, fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ninguém se corrige nesta idade, com todos os diabos!