A jovem vizinha do pintor tinha na mão um grande ramo de violetas, e voltando-se para falar a alguém, sorriu-se. Mas que sorriso! Um minuto antes eram bem lúgubres os pensamentos de André Sauvain. Na confusão de monstros, de demónios, lobisomens e bruxas, de que povoara o seu quadro, entrevia amargamente no espírito o símbolo da sua existência atribulada. Estava triste como a morte. Porém a gentil visão dispersara os fantasmas, como um facho luminoso dissipa as trevas. André sentiu o coração bater-lhe com força desusada. Era de júbilo. Teve uma vertigem e baixou os olhos, enquanto o ardente sangue dos seus vinte e cinco anos fazia retumbar-lhe aos ouvidos, em grande orquestra, a arrebatadora sinfonia da esperança.{8}

Foi apenas um relâmpago. A visão desaparecera; a janela fechou-se. E André, querendo continuar o seu trabalho, não pôde, porque lhe tremiam os dedos; abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. A noite veio surpreende-lo assim. Então cada objecto assumiu para ele um aspecto fantástico; parecia-lhe que, em volta de si, aromatizava o ar um suave perfume de violetas; aplicou o ouvido, e julgou perceber o eco longínquo de uma cançoneta; olhou para o seu quadro, e só viu nele um turbilhão de cabeças louras, iluminadas por grandes olhos pretos.

E por toda a parte, no centro da casa, por detrás dos modelos de gesso e dos cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das telas esboçadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo de violetas, uns olhos negros e uns cabelos louros.

—Será assim que nasce o amor? perguntou André a si próprio, tomando-se o pulso. Depois, levantou-se aterrado:

—Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar!{9}

[II]

Nesse tempo (refiro-me ao ano da graça de 1853) André Sauvain, bem que fosse proprietário, não jantava todos os dias. Verdade é que a sua propriedade não valia sessenta escudos, e não lhe rendia sequer um franco! Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia; uma ruína musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa. Mesmo assim, André podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais horrível miséria o determinaria a tal: apegara-se-lhe o coração àquele pardieiro pelas raízes profundas, a que chamam recordações; tinha lá nascido e lá morrera sua mãe.

Além da humilde casinha de seus pais, André Sauvain só possuía... a sua pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um cão! Devera ter começado por dizer: nem um soldo!{10} O resto depreendia-se por simples ilação. Vivia de esperanças e de privações; frugal alimento, que o conservava sadio e alegre. Tanto de verão como de inverno, levantava-se com a aurora, pintava até à tardinha, e aproveitava-se da escuridão para percorrer Paris em todas as direcções; depois recolhia extenuado de fadiga, deitava-se às apalpadelas, para economizar azeite, e dormia a sono solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a circulação do sangue e entretinham-lhe a actividade do cérebro. De noite, as ruas inspiram os cismadores. Parece que aquelas grandes artérias, onde circulam sem cessar correntes humanas, estão saturadas de fluidos intelectuais, e que as ideias se exalam do solo em vapores invisíveis...

Aqueles prodigiosos passeios eram as únicas extravagâncias de André. Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros divertimentos, que não fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro abstinha-se ele com extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de plateia lhe cerceava dois dias de subsistência.

Além de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um terno[[1]] à loteria; consistia ela em reunir alguns centos de francos,{11} não só para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda para cobrir com modesta lousa a pobre viúva, que repousava a um canto do pequeno cemitério da aldeia.