Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas, opulento à medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da pátria. Porém a tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os seus marinheiros e aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima ou duodécima vez.

Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma tábua, louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma sociedade colossal de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde sair do hospital, para onde o tinham transportado, a braços com um tétano, dirigiu-se{67} para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou andrajoso e faminto.

—E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que escutara esta narrativa com crescente interesse.

—Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu dinheiro, comprei fósforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos, serrei madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moço de recados, escritor público, contratador de bilhetes de teatro, professor de esgrima, dei serventia a pedreiros, etc.; enfim, tal como me vê, possuo já alguns centos de francos, que me produzirão avultados lucros. Vou alugar uma tenda; venderei seja o que for... seja a quem for: e, quando tiver mil francos de meu, visto-me de novo e vou jogar na Bolsa.

—Com que fundos?

—Com os da minha inteligência, respondeu Pedro Toucard, batendo na testa com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!... Com a breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num mês teria ganho o quádruplo!

—Ou ficaria sem nada...

—Qual história! só os tolos é que se enterram, e eu tenho olho vivo... Aposto que ainda me verá milionário!

—Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audácia, já é ter confiança em si!{68}

—Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante preferido da fortuna: abandona-me às vezes, mas volta sempre para junto de mim... As ideias vêm-me, como aos outros o ar que respiram; uma palavra proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um cão, uma tabuleta, a forma de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma ideia... Eis porque eu tenho confiança!...