Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metálica, e mais notável ainda pela sua acentuação provençal muito pronunciada.

—Desculpe-me, senhor, balbuciou André um pouco atrapalhado. Não tive intenção de o ofender.

—Com mil bombardas! assim o creio. Então julgou conhecer-me, heim?

—É a primeira vez que o vejo!

—Outro tanto não digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes examinavam André dos pés à cabeça; parece-me tê-lo encontrado algures... ou ao senhor ou a alguém muito parecido consigo!... Em Roterdão, suponho eu... ou em Calcutá... talvez na Filadélfia?...

—Nunca me afastei tanto de Paris, disse André.

—E eu venho cá pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei. Mas então que fazia aí, em êxtase diante da minha pessoa?{16}

—Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua fisionomia interessou-me.

—Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabeça de Sócrates... ou de sátiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso extinguiu-se-lhe logo numa contracção nervosa; tornou-se mais pálido, e segurou-se, para não cair, ao ombro do moço pintor.

—Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou para o fundo.