Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora era-lhe mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida para ele, em Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer lhe escrevera, e repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»
Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar o seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um atelier mais cómodo e decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali. Alugara os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo pai. Podia acaso afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na flor da sua radiante beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela lhe fizera a{115} primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão venturosas?...
Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo na fadiga.
Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível; como o trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o; pálido, enervado, emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem forças, nem energia, passou os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.
Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as suas quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo mesmo caminho. Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.
Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os seus últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e busca um seio amigo, onde reclinar a fronte.
E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor de si um conforto, uma{116} dedicação, uma simpatia... Mas... debalde: nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no presente ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...
Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito entumecido de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da criança em aflição. Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à superfície, assim uma palavra de há muito esquecida, subindo do fundo da sua fraqueza, do abismo do seu isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha mãe!»
Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação sobre-humana, único amor desinteressado, único apoio... que resiste quando todos os outros se nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os mais indeléveis sentimentos se esvaíram em fumo! Maternidade! santa encarnação do sacrifício! O homem só te aprecia quando te perde!
Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela teria derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o embalaria com aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do vocabulário dos anjos!...