O pintor não confessara tudo a Rosa.{121}

Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da costa. Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se dela; maltratou-a, desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam, e afinal desapareceu, abandonando à miséria a esposa e o filho recém-nascido.

Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo da Ariana, e da perda daquele navio com toda a tripulação.

Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava seu filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as brutalidades de Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um culto, aliás pouco merecido, e conservou-se viúva.

Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e abnegação. Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho uma educação conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego que o fixasse em Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si enfim...

Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer as suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um escultor, passando por ali, o{122} encontrou, e apreciando a sua inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas de alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.

Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.

Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas apenas puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um grito estridente, acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o rosto desfigurado, segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um prodígio de coragem, conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho; deitaram-na na cama, pediu um padre, e expirou no dia seguinte. Não podia duvidar-se de que, mais uma desgraça pousara a sua mão de ferro sobre aquela humilde existência... Que desgraça fora, nunca o soube André.

Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o sinistro enigma?

Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas paredes mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua imaginação ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas impetuosas do vento, abalando o tecto,{123} sucediam-se, como gargalhadas de escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...