Tirou o morgado o vinho, examinaram-o, provaram-o e aguardaram o comer.
Para affligir Maria, repetiu o frade ao jantar as noticias da revolta miguelista, dirigindo-se a D. Perpetua, grande partidaria de Carlota Joaquina, hostil aos liberaes pelo seu odio aos conventos.
—Pois minha querida senhora D. Perpetua, vae V. Ex.a sentir desafogada a sua alma pela grande desafronta que na nossa terra vae haver. Teremos carne fresca, salutares espectaculos a este povo tão offendido, e estou certo que o senhor morgado não deixará de mandar pôr o seu carroção para dar ás festas o prestigio da sua presença, e á menina Mariquinhas, como é de lei, a lição do castigo dos criminosos.
Muito nervosa, cravou Maria os olhos no prato, não respondeu ás solicitações directas do frade, e sempre conseguiu reprimir os impetos de o descompôr.
Impacientava-a a demora d'esse jantar interminavel.
Aterrada pelo perigo de vida em que se encontravam os constitucionaes, anciava vêr Josepha da Esperança que lhe devia contar a verdade.
Procurava convencer-se de que eram tudo exageros do frade, encommenda do pae para a fazer abandonar João.
Contava agora fr. Angelico os desacatos dos liberaes, o desabafo do povo de Lisboa em 1820, invadindo o palacio da inquisição, e despedaçando a estatua da Fé, da frontaria; e as invenções fradescas de Christos servindo de alvo, de imagens arrastadas pelos cabellos em procissões maçonicas.
Assustavam esses horrores a inconsciente credulidade de Maria, e quando o frade lhe falou do milagre de Setubal, dois anjos a cavallo n'uma nuvem, com a legenda de vivas a D. Miguel, temeu viver em peccado mortal pela affeição votada a um adepto de Satanaz.
Mas chocava-a a inverosimilhança de que esse pobre rapazinho, tão meigo, tão ingenuo, tão respeitador, bebesse vinho por caveiras, e escarrasse nas cruzes, como o frade ia insinuando, cada vez mais excitado pelo verdelho.