Para além das escuras cumeadas marchava João entre as cento e cincoenta praças da columna, pensando amargamente na abominavel escravidão mental em que jazia o povo, a ponto de reunir-se em armas hostilisando os libertadores.

Tinham que levar pela violencia os proprios a quem emancipavam, erguendo-os á concepção de uma patria, á realisação de um pais independente, entregando-lhes a posse dos seus destinos.

Eram forçados a armarem-se de espingardas contra esses cujo soffrimento interpretavam, emancipando o individuo, o trabalho, a terra; abrangendo na mesma redempção o camponês dobrado sobre a enxada, o plebeu asphyxiado pelo preconceito do nascimento, a mulher escravisada na clausura.

Reclamavam para si o logar a que lhes davam direito as faculdades intellectuaes, mas não esqueciam o cavador, o pescador, o artifice, formulando as reclamações que elles eram incapazes de conceber, analphabetos, desmoralisados por castigos corporaes, intimidados pelo inferno, esperando apenas a felicidade depois de mortos a troco da completa submissão.

Por si e por esses que pretendiam elevar pelo ensino obrigatorio, pela suppressão do direito dos senhores ao producto do trabalho, expropriaram as classes privilegiadas: funccionarios monopolisadores das rendas publicas; desembargadores vendilhões da justiça; militares insaciaveis de promoção e de soldos; capitães-móres que dispensavam de soldado a troco da honra das mulheres, da virgindade das raparigas; fidalgos possuidores da terra, do exclusivo dos altos cargos, do privilegio da venda do vinho, dos moinhos, dos lagares de azeite, da agua para regas, das pescas nos rios e no mar, das coutadas que por si sós eram a ruina da agricultura; padres, frades e freiras que, como proprietarios, usufruiam todos os privilegios da nobreza e exerciam a maior industria, quasi a unica industria, a exploração da credulidade publica, pesando terrivelmente, pelas communidades ricas e pelas ordens mendicantes sobre todo o trabalho nacional.

E mais uma vez a inconsciencia dos opprimidos, guiada pelos semeadores do mal, desejava-lhes a morte, e reclamava-a cantando, em córos de vozes avinhadas:

Rebenta mação
Remoe liberal,
Livre é Portugal
Da constituição.

Ó Virgem da Bôa Morte,
Senhora dae-lhes consumo
Para que os pedreiros levem
A volta que leva o fumo.

A fôrca em bolandas
Andando apressada
Da atroz pedreirada
Acabe as demandas.

Estavam convencidos os desgraçados populares, arrancados á familia para derramarem sangue pelos seus parasitas, de que se batiam pela religião, de que, combatendo os soldados de D. Pedro, esse rei estrangeiro, liberal e pedreiro livre, que declarára guerra a Portugal, e lhe arrancára o Brasil, calcando aos pés emblemas nacionaes, obedeciam aos designios de Deus, que mandara á terra o archanjo S. Miguel, incarnado no infante, para restabelecer no seu antigo explendor a fé catholica.