—Só se v. ex.a me promette ser conciliador. Disse o Divino Mestre, que se o inimigo nos offender na face esquerda devemos offerecer-lhe a direita.

—Isso aconselharia aos frades, que aos fidalgos não!—respondeu irritado Martinho.

—Pois n'esse estado de espirito, meu senhor, Deus me defenda.

—O melhor é falar vossa reverendissima. Eu acompanho-o, mas permitto-lhe todas as habilidades conciliadoras, porque tambem prefiro que não me incommodem.

—É Deus que o illumina, senhor morgado. Assim verá que fica tudo em bem.

—Mande-o entrar para a sala dos retratos—disse o morgado á criada—peça desculpa da demora, e que já lá vamos.

Estremeceu o frade de novo:

—Ah! Senhor do ceu! Basta o tempo que o fizemos esperar para o esbirro já estar como uma bicha. Que carantonha que não vae fazer!

Bebeu mais aguardente o fidalgo, tirou o capote, mirou-se, compoz os bofes, puchou os punhos de rendas, e lançou a fr. Angelico um olhar de desdem:

—Você já não conheceu o homem de côrte. Pois fique sabendo que me vi muita vez nos regios paços de Queluz, e sei bem a etiqueta das salas. Verá como procedo, e como, sem o humilhar, por que elles estão de cima, lhe farei sentir a differença que vae de um fidalgo a um traficante de sentenças. Basta o logar onde o recebo para o envergonhar do seu baixo nascimento. E certas coisas que lhe direi ao correr do pello...