—Permitta-me v. ex.a, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro, que aponte a sua senhoria os achaques...

Mas o corregedor, sem fazer caso, interrompeu-o, dirigindo um novo golpe á prosapia de fidalgo:

—Não julgue, senhor Soeiro, que venho aqui por causa das tristes perturbações fomentadas pelos mal intencionados que exploram as disenções de irmãos. Calcula decerto o grave motivo que me traz por semelhante tempo...

Ferido no seu orgulho, julgou conveniente o morgado dar-lhe desde logo a lição projectada, e forçando um sorriso que o tornava mais feio, respondeu:

—Quem não deve, não teme, e se eu tivesse que receiar das justiças, ou não estaria á mercê d'ellas, ou a minha porta achar-se-ia guardada, com o direito de que sempre usaram em Portugal fidalgos de solar.

Apontou para fóra o juiz, n'um gesto amavel:

—Foi informado o tribunal de que ha aqui um quinteiro brigão, o que, para evitar algum desacato d'esse desordeiro, me forçou a vir convenientemente acompanhado, não por causa de v. s.a, mas por via d'elle.

Trocaram um olhar fr. Angelico e o morgado. A escolta lembrava logo uma prisão. E a referencia á cilada fazia-lhe receiar que João ou o veterano o tivessem denunciado como conspirador.

Triumpharam os propositos conciliadores que ditava o mêdo, e o frade adiantou-se, muito curvado:

—Perdôe v. ex.a, senhor corregedor, não lhe ter offerecido já alguma coisa quente, uma chavena de café, uma magnifica aguardente da lavra do fidalgo, para o preservar de uma peitogueira...