—É soror Thereza de Jesus, que em formosura desbancou a madre Paula, senhora de Melres, e conhecida por isso no convento pela Melrinha, ao que allude o segundo quartel do meu brazão, tres melrinhos de oiro sobre purpura. Era já fidalga, filha do senhor de Villar de Corvos, representado no primeiro quartel por aquelle corvo de prata em campo azul, mas el-rei o senhor D. João V—e curvou-se como se estivesse na presença do monarcha—houve por bem, ao conceder-lhe o alvará de legitimação do filho, dar a meu bisavô o titulo de moço fidalgo da casa real, com serviço no paço.
Orgulhava-se apontando outro retrato, um homemzarrão em corpo inteiro, grande cabelleira em caracoes, tricornio debaixo do braço:
—É meu visavô, D. Francisco, com quem, dizem, me pareço muito. Batendo-se como um heroe, conquistou para o nosso nome um immorredoiro prestigio, merecendo pelos seus feitos d'armas, e pela particular predilecção que sempre nutriu el-rei por minha visavó, as doações com que se creou o nosso morgado.
Indicou-lhe outro retrato, em meio corpo:
—Este é meu pae, D. Fernando, intimo d'el-rei o senhor D. Pedro III, que o teve em alta estima. A esse prestigio de que sempre gosámos no paço, deve minha irmã, D. Mafalda, o honroso logar de dama de honor da rainha senhora D. Carlota Joaquina.
Era a dama que enchia outra grande téla, em trajo de côrte, vestida a azul e vermelho, toucado de plumas, opulenta de rotundidades que a tornavam celebre nos lubricos bailados da rainha, sua rival em fama.
Por sua vez, indicou o juiz um retrato:
—Este, que como os meninos postos de castigo está voltado para a parede, brilha para mim atravez da tela. Conheço-o, é D. Bernardo, o amigo dedicado do grande marquez de Pombal, que veiu a esta terra cumprir a ordem de expulsão dos jesuitas. Porque não honra v. ex.a as nobres tradições d'este seu avô? Porque não reconhece que as nossas ideias teem raizes bem fundadas, e que já foram defendidas por bons fidalgos, como v. ex.a classifica os da sua geração?
Respondeu gravemente Martinho Vasques:
—Este infeliz foi transviado, corrompeu-o o mal do tempo, e a sua alma deve estar no purgatorio, aguardando o juizo final, feliz ainda assim por levar em seu favôr os serviços que filhos e netos teem prestado ao throno e ao altar. Os verdadeiros principios da minha familia são os religiosos; nasceu e creou-se meu visavô no convento; auxiliou meu pae a restauração religiosa da senhora rainha D. Maria, que santa gloria haja, e foi minha irmã uma das fundadoras do culto da Senhora da Rocha.