Espreitava por dentro dos ralos a chegada da justiça, adivinhando-a em todos os vultos que divisava ao longe, nos carroções que denunciava o estrepito distante, e só n'essa manhã tivera a fortuna de a vêr chegar.
Tremendo, abraçada á mãe, a quem n'esses dias de dôr quizera mais que em toda uma vida de afastamento, de seccura, aguardou que a fossem buscar.
Parecia-lhe de mau agouro a demora.
Quando o frade a chamou, seguiu-a D. Perpetua n'um repente tão aggressivo que fr. Angelico receiou um desacato.
Que triste que era o seu noivado! pensava Maria, ao encaminhar-se para a sala, crente de que a esse rompimento seguiria o consorcio.
Revoltou-se o juiz ao vêr-lhe os olhos pisados de chorar, as faces pallidas, cavadas, a agitação em que tremia.
Pediu-lhe que se sentasse, e perguntou-lhe se era verdade ter sido maltratada, e encontrar-se prohibida de toda a communicação.
Acobardou-se ella ante o tom grave da pergunta, e levando o lenço aos olhos, rompeu a chorar, sem responder.
—Não preciso melhor confirmação—disse o juiz erguendo-se, e dirigindo-se a Martinho Vasques—É o caso da lei, abuso do poder paternal. Sou pois forçado a cumprir o que se me requer, o deposito judicial em casa do mais proximo parente.
—Protesto contra semelhante violencia, e juro que lavarei esta afronta com sangue!—bradou o morgado.