Ergueu pesadamente o corpanzil obeso, cambaleando nas grossas pernas a estoirarem os calções de ganga amarella, copiados de D. João VI, que usava com meia branca e sapatos de fivella de prata.
Já pelos bofes da camisa, pelo collete e pela casaca, nodoas de vinho affirmavam o abuso da bebida, e a mão tremula derramou-lhe o copo, que empunhava de pé, virado para João.
—Á tua, em memoria de teu avô!
Bebeu e tornou a sentar-se, pesadamente, apoiando-se á borda da meza e á grande cadeira de braços, de coiro negro e pregaria amarella, em que presidia á cabeceira, na velha tradição senhorial.
—Grande homem que elle era!—apoiou mestre Jacintho—sem desfazer em quem está presente.
Endireitou o corpo alquebrado, illuminou-se-lhe o olhar, e o velho soldado denunciou-se no cabello á escovinha, na colleira de coiro negro que no pescoço escanzelado saia da camisola de linho de pastor, na marca das bexigas que lhe favava a cara encorreada, como passada ao lustre das mochilas.
Tomou com toda a confiança um copo, bebeu e, sempre de pé, disciplinado até a escravidão, voltou-se para Martinho Vasques:
—O que nós fizemos n'aquelle Russillão!
Attingia a phase piegas a embriaguez do morgado, tremia-lhe o beiço inferior, descahido e inchado, tornavam-se-lhe muito pequeninos os olhos duros, de um azul frio, raiados de vermelho, e o nariz destacava-se-lhe rubro, da côr de telha do rosto apopletico, onde as sobrancelhas asperas, espessas, unindo-se carrancudas, os longos pellos das ventas e dos ouvidos, punham em occasiões normaes a marca da rudeza, da selvageria.
—Se não fosse teu avô não estava eu aqui! Se não me tivesse deitado a mão quando eu caí ferido na retirada da Montanha Negra! Devo-lhe a vida a elle e a este velho!