E essa obsessão leva-o a consagrar-se como um fanatico á conquista do archipelago, com um navio adquirido por subscripção.

Empolga-o a figura prestigiosa de D. Pedro, indo á ilha organisar a expedição liberal, pôr-se á frente d'ella; e n'esse imperador de trinta annos, que abdicára duas corôas, assignára duas constituições, proclamára a independencia de um imperio, fôra grão-mestre da maçonaria, e interpretára em dois hymnos a sua ingenua crença liberal; n'esse principe, hostilisado em Portugal por ter emancipado o Brasil, guerreado no Brasil por se preocupar com Portugal, via agora o desenlace do conflicto, pela garantia de ordem que dava á Europa a cathegoria do novo general dos que, desde Vinte, se batiam pela liberdade.

Todos queriam partir, e os officiaes emigrados, que não cabiam nos quadros das forças, constituiram o Batalhão Sagrado, para terem a honra de fazer parte do exercito libertador, aonde aos veteranos do Rousillon, aos soldados da guerra da peninsula e da legião portuguêsa ao serviço de Napoleão, se juntavam os voluntarios de 23, os academicos, os alistados agora, os pescados á esquadra, estrangeiros vibrantes da indignação que agitava a Europa contra a oppressão portugueza, toda a juventude sangrada aos Açores para a libertação de Portugal.

Ao partirem da ilha de S. Miguel, onde se concentrára a expedição, cantavam enthusiasmados o novo hymno constitucional, que D. Pedro escrevera ao vir lançar-se na lucta pela carta outhorgada, pelo throno da filha:

Da rainha e da carta o pendão
Já nos mares se vê tremular,
Nobre esforço que a honra dirige,
Vae de Lysia a desgraça acabar.

D'entre a noite no carcere horrendo,
Resurgidos ao dia fatal,
Inda vertem heroes portuguêses
No patibulo o sangue leal.

Nas entranhas da escura masmorra
Onde reina da morte o terror,
Outros mil inda esperam constantes
Igual sorte c'o mesmo valor.

Mesta Lysia em gemidos implora
Que as algemas lhes vamos quebrar;
Já nas praias as mães lagrimosas
Pelos filhos se escutam bradar.

A cada quadra repetia-se o estribilho:

Foge, foge, ó tyranno e não tentes
Ferreo sceptro mais tempo suster;
Que nas aras da patria juramos
Viver livres, ou livres morrer.