Porque não rompera n'um rasgo soberbo, lançando-lhes em rosto alguma dura phrase ouvida na botica, predizendo-lhes a aniquilação fatal da fidalguia, despojada do direito de explorar o povo, annulada pelo plebeu trabalhador, instruido e saudavel, ella, a casta analphabeta, indolente, corroida no sangue por heranças de miserias e de vicios?

Precisava desafrontar-se, lançar-lh'o em cara, citar-lhes os artigos da Carta que confirmavam a Constituição na extincção dos privilegios, no estabelecimento da egualdade.

Mas teria offendido gravemente Maria...

Fôra melhor assim!

Ella não podia pensar como o pae, como o primo.

Tratara-o sempre como um egual e, se manifestára aquella grande estranheza, fôra decerto por ter ouvido de chofre o seu audacioso proposito, sem que uma gradual preparação a habilitasse a encarar aquelle amor como a natural consequencia da intimidade em que viviam.

Maria amava-o, sem duvida; e assim que lhe importariam os preconceitos?

Vibrava na revolta sentimental dos poetas que, em relampagos de genio, previam a declaração da egualdade, queixando-se de que Deus fizesse deseguaes os homens, e lhes desse, impiedoso, olhos e sentidos para escolherem o melhor, e um coração para estalar de dôr; e se fosse poeta glosaria n'um sentimento vivido, para os enviar a Maria como um formidavel protesto, os versos de Gil Vicente:

«Que el amor que aqui me trajo
Aunque yo fuese villano,
El no lo es.»

Já não havia porém villões e fidalgos; perante a lei eram todos cidadãos!