Pelo pequeno caixilho de minguados vidros azulados percebeu a confusa luz da manhan.

Então destrancou vigorosamente as portadas, retirando o grosso cilindro ao longo da cava da cantaria e, depondo-o contra o poial, puchou para si os dois pesados batentes e debruçou-se com avidez.

—Muito madrugaste hoje—disse-lhe debaixo a tia Pulcheria, ajoujada á celha das lavagens, avental de barras amarellas, ainda com a rede de dormir apanhando os cabellos brancos.

Deu-lhe os bons dias e viu-a, por entre os claros da parreira de Alicante, dirigir-se ao curral onde grunhia o porco alegremente, o focinho bronco farejando por cima da cancella.

—Não ouviu uma peça, tia?

—Ha de ser navio de Lisboa.

Em passo miudinho, muito activa, a arregaçada cheia de milho, acudia ao tumulto da capoeira, onde o gallo repenicava, em desafio com os visinhos, emquanto da pocilga rompia um grunhido satisfeito, misturado ao chapinhar na agua de semeas.

Rompeu no castello o toque da alvorada, o echo vibrante do clarim dando o signal do batalhão, e o terno de cornetas atacou as notas baixas, até se casarem n'um hymno ao triumphal raiar da aurora.

Passavam chocalhos de machos carregados de trigo para os moinhos do Pisão.

Apregoavam leite homens do monte, vindos da Ribeirinha, barba ruiva, pé descalço, vestidos de linho branco alvo de neve, a camisola presa no pescoço por botões de oiro, carapucinha preta com orelhas vermelhas, pequena como a palma da mão, posta á banda n'um elegante equilibrio, batendo o bordão com rendilhados na ponteira; rolhas de pasto no bico negro das cabaças defumadas, com pontos a cordel em fendas, por onde o leite gotejava, aos solavancos do pau posto ao hombro esquerdo.