—Aqui sabe-se tudo, quer eles queiram quer não. Os tres estados, como tu já ahi lêstes, absolvem-o a seu modo, adoptando a moral jesuitica do juramento condiccional; mas ainda o desculpam de outra fórma, dizendo que elle, ante o parlamento, não jurou com a mão nos evangelhos, mas em cima dos Burros d'esse bandalho do José Agostinho de Macedo. Tu sabes as minhas opiniões, para mim tanto vale um como o outro, é tudo palavreado de frades. O crime está na má fé de bandido com que abusou da confiança attribuida á palavra de honra de qualquer homem de bem, quanto mais de um principe!

João indicou-lhe o artigo da Gazeta.

—Dizem que elle foi coagido a jurar.

—Patife! Estava coacto, sim, é a desculpa d'esses homens que para vergonha nossa ainda governam cidadãos livres como rebanhos de carneiros. Na Villafrancada e na Abrilada, D. João sexto e D. Miguel declararam-se mutuamente coactos e illudidos, para justificarem as traições e as perfidias em que se digladiava a real familia. A sua «sciencia certa e o seu poder absoluto» guardam-os esses ungidos do Senhor para pôrem os gatafunhos nas medidas uteis dos seus ministros.

Amarrotou a Gazeta furioso, batendo com as costas da mão no artigo dos «tres estados», emquanto passeiava, declamando:

—Isto que ele fez agora, deitar a mão á corôa, já o tentou por duas vezes em vida d'esse pobre diabo de D. João VI, combinado com a porca da mãe. Correu-lhe mal a coisa, teve que submetter-se na Villafrancada, e da Abrilada foi rebolindo de castigo para o extrangeiro. Da Austria, mal se viu livre do pae, escreveu ao senhor D. Pedro, reconhecendo-o e aceitando-o como herdeiro do throno portugues. Quando o grande rei liberal usou do poder para abdicar d'elle no povo, doando nos a Carta Constitucional, e para ceder a corôa á nossa joven rainha D. Maria da Gloria, sob a condição de D. Miguel casar com ella e acatar a Carta, jurou-a solemnemente, e até enviou ao irmão regente um manifesto negando a authoridade do seu nome a quem impugnasse o novo codigo da liberdade. Escreveu ao rei de Inglaterra garantindo-lhe o proposito de fazer respeitar as novas instituições, mantendo por meio d'ellas a paz em Portugal. Ao chegar a Lisboa, em triumpho, entre meio de partidarios, sem que um só liberal se lhe podesse aproximar, ratificou, em grande ceremonial, os juramentos, e ainda cumpriu, a seu modo, a Carta, assignando decretos em que a applicava. E quando pôz o exercito da sua mão, mudou a officialidade, augmentou a policia, quando se considerou absolutamente seguro, desmascarou-se, fez-se proclamar rei absoluto, inventou a questão da legitimidade, que nunca até hoje fôra apresentada, e fez trabalhar o cacete e a fôrca.

—E está realmente acclamado rei em todo o reino, como diz a Gazeta?—perguntou João intimidado.

Mediu-o Juvencio de alto a baixo, e respondeu n'um aprumo soberbo:

—Mas não o está na ilha Terceira!

Elle retorquiu, receioso, mostrando o jornal: