—Lá isso é que não vae, podes ter a certeza! Ha de ficar, ao bem ou ao mal. Não é só meterem-se nas coisas. Quem as arma que as desarme. Vae por ahi uma gritaria, um desespero que é de cortar o coração. Bem se sabe o que o Miguel fará se entrar aqui. São mortes, confiscos, donzellas violentadas, creanças insultadas nos seus lindos olhos azues, a maldita côr constitucional. A elles póde não importar isso, mas nós não queremos a desgraça na nossa querida terra. Se teimarem em fugir, abandonando ao carrasco mulheres e creanças, ensinar-lhe-emos á força o seu dever!

Como sempre, fôra avassallado João pela fé do velho liberal:

—Sim! Sim! Diz muito bem.

E no rosto lia-se-lhe uma formal decisão.

Agora Juvencio approximava-se, commovido, os olhos rasos de agua:

—Quando fôres pae, Joãosinho, comprehenderás a minha dôr. Tenho aqui em cima tres filhas, e já um neto, cujos cabellos loiros são o meu encanto! A minha familia é a minha religião. Tudo quanto sou, me tornei por causa d'elles! A minha alegria é o reflexo da sua alegria, a minha vida é o trasbordar da sua vida, a mesma que em mim se definha e n'elles se perpetúa. A mulher é tão velha como eu, mas ellas são novas e lindas. Queres saber o que os padres prégam do pulpito abaixo? Que é preciso matar as malhadas, as filhas de liberaes como as minhas, de preferencia as gravidas, porque as creanças já trazem no ventre o ferrete da malhadice! A minha filha casada está para dar-me outro neto. Calcula agora as minhas queridas filhas, e os olhos azues do meu lindo neto, pasto de soldados e de frades! Não! Não ha de ser assim!

—Na nossa terra não entram esses barbaros!

Mais calmo, limpando as lagrimas, aliviado pelo desabafo, Juvencio continuou:

—É preciso que não entrem! Toda a esperança da liberdade portuguesa depende de nós. Se fossemos vencidos reinaria o Miguel por toda a parte. É o que agora dirão no conselho ao major Quintino. O futuro de Portugal está-se jogando, n'este instante, ali! A ilha Terceira póde defender-se, e ha-de defender-se! É tão bravia a costa do mar, que faz por si só uma muralha, e se n'ella nos vencerem, temos as do castello. A nossa terra é tão insignificante, estará dizendo Quintino, que n'um dia se corre toda em volta a pé. Pois quanto mais pequena fôr, maior o exemplo! Ha-de acabar-se a dependencia. Tornaram isto um degredo, um escoadouro de tudo quanto tem de mau. Mandam para cá o refugo dos funccionarios, o que lhes não serve de nada. Pois se o mal vem de lá, ha-de ir-lhe de cá a lição! Aqui foi o reino do Prior do Crato; aqui viveu ainda por dois annos o Portugal independente, vendido pela fidalguia ao rei de Hespanha; ha-de ser aqui o sacrario da liberdade, que depois reviverá em Portugal!

Observou a praça, e ficou descontente: