Indo da meza para a adega, saindo da adega para a meza, reconhecera ha muito o morgado que de tarde não fazia bons negocios, e antes de jantar fechava as gavetas do dinheiro e saía sem cinco réis, para que não lh'o extorquissem, com intimidações do inferno, para missas; para que não lh'o arrancassem, com lagrimas, antigas jovens das redondezas, invocando as complacencias de solteiras em favôr dos maridos, dos filhos, dos netos.

—Não se trata de dinheiro, meu senhor, embora saiba que a sua generosa bolsa está sempre aberta para a defeza da bôa causa.

E falando-lhe ao ouvido, insinuou:

—Trata-se da sua honra, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro!

Ergueu-se, aprumou-se o morgado, e os musculos do rosto, distendidos na bonhomia de ebrio, contrahiram-se n'uma inesperada expressão de gravidade. A normalidade da embriaguez permittia-lhe a consciencia das situações extremas, ao contrario da absoluta perda de conhecimento dos que não bebem por habito, e só excepcionalmente se transtornam.

—Siga-me!—ordenou ao frade, que se humilhava hypocritamente, n'um ar compungido.

Encaminhou-se para a escada de mão, segurou-se-lhe, poz o pé no primeiro degrau, mas ao querer subir cambaleou, em risco de cair.

Offegante do exforço, accentuou se-lhe na fronte uma ruga, e pairou-lhe nos labios uma contracção de vergonha, de nojo de si mesmo. Ia occupar-se da sua honra a cair de bebedo!

Tinha de dar a volta, e entrar pela escada principal.

Então abotoou o collete, compoz a casaca, puchou os punhos, arranjou as pregas dos bofes, e apoiando-se ao marmeleiro que deixára contra as pipas, caminhou n'um ar magestoso, seguido pelo frade cabisbaixo, rastejante.