Ergueu-se apopletico o morgado, o sangue a rebentar do cachaço rubro, abaixando a fronte, n'um gesto de investida. Zumbia-lhe nos ouvidos um turbilhão de sangue exasperado, passavam-lhe no olhar relampagos de vingança, e os labios mexiam-se-lhe convulsos.
Mas tornou a sentar-se, e disse com certa compostura:
—Isso póde não passar de uma brincadeira. Comtudo fez bem em me avisar.
—Desculpe V. Ex.a—insistiu o frade—mas não se trata da infantilidade que julga. São os conselhos da botica, é a lição da liberdade! Esses infames querem afundar tudo na anarchia, e lançar mão das grandes casas fidalgas, em nome da egualdade que apregoam!
Meditou o morgado, a cabeça apoiada entre as mãos, e depois disse gravemente, em phrase arrastada:
—Basta, fr. Angelico. Isso póde ser um calculo d'elle, mas não alcança minha filha, nem attinge a minha honra, entenda-o bem. Podem fazer as leis que quizerem sobre egualdades. Quem é do nosso sangue não desce! Vença quem vencer, nós continuaremos a ser o que sômos, e elles o que são. Vossa reverendissima não póde comprehender isto, porque é plebeu. Mas eu sinto-o no sangue, como minha filha o deve sentir.
Conteve n'um gesto o frade, que ia a falar.
—Póde retirar-se. O que tenho a fazer é commigo, juiz e executor em minha casa, na minha familia e na minha raça, como chefe de linhagem que sou!
E correspondendo ás subservientes reverencias de fr. Angelico:
—De caminho mande-me o quinteiro, faça favôr.