Dorotheia censurou, muito sentida:

—Estás sempre metido na botica a lêr as gazetas, e decerto lá vaes encafuar-te a saber o que veiu de Lisboa, essa Babilonia, Sodoma e Ghomorra, a corrupta e devassa Lisboa, como préga, acceso em santas iras, fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria.

—Quando o vinho do morgado lhe sobe á cabeça.

Pulcheria reprimiu João n'um olhar.

—Não te fica bem o que fazes, nem o que dizes. Fr. Angelico é muito de casa do senhor morgado dos Folhadaes, o nosso protector. Elles são do senhor D. Miguel.

—Estão no seu direito.

Dorotheia acudiu com a questão do dinheiro:

—Lembra-te que elle te dá quatro patacas por mez pela escripturação dos rendeiros; e pelas festas, pelo Espirito Santo, e pelas matanças manda sempre os seus presentes em salva de prata, com sua toalha de damasco. Teu pae e teu avô foram muito d'aquella casa, e tu mesmo és tratado como amigo.

E reparando na distracção d'elle:

—Não comes nada? Grande coisa tens hoje!