Caridade, quem és! Quem te inventou?
Para que serves, quaes os meios teus,
A tua agencia, assim, quem t'a arranjou,
Para que vens fallar-nos sempre em Deus!

Em Deus! Quando o universo elle creou
Legou a alguem riquezas ou tropheos!
Quaes foram os brazões, que bens doou?
Venderia indulgencias lá dos ceos?

Mentes, que nunca fez separações,
Nem fez a fome nem as privações,
O mundo concedeu á húmanidade.

Mas como é que ha então ricos e pobres?
Como é que existem os plebeus e os nobres?
Que significas pois, ó caridade?

II

Rebanhos a pastarem nas campinas,
As aves a cruzarem-se no ar,
O serpear das aguas argentinas,
Os fructos a dourarem no pomar;

A pureza das auras matutinas,
Os dias que o bom sol nos vem dourar,
As flores assetinadas, purpurinas,
As poeticas noites de luar;

Os campos no sorrir da primavera,
A selva, as fragas onde vive a fera,
O universo em toda a immensidade,

Nunca foi concedido por herança.
Era pr'a humanidade a esperança
De um dia conquistar a felicidade.

III