Batalha de Marathona.—Mandou Athenas, n'este grande aperto, pedir o auxilio de Esparta; mas os Espartanos, detidos por um uso supersticioso, que lhes não permittia partir para a guerra antes da lua-cheia, pediram dez dias de espera. Os Athenienses, a quem a difficuldade das circumstancias não permittia delongas, marcharam ao incontro do inimigo. As dez tribus forneceram cada uma mil homens e um stratégo ou general, sendo o commando em chefe conferido a Milciades. O exercito dos Persas era dez vezes mais consideravel, o que não obstou a que a sua derrota fôsse completa. A batalha de Marathona (490) inaugurou com gloria o imperio e o prestigio da democracia atheniense.

Morte de Milciades.—Em seguida, Milciades convenceu os Athenienses a armarem uma esquadra para conquistarem as{36} ilhas do Mar Egeu que tinham prestado homenagem aos Persas. Foi sitiar Paros; mas teve de levantar o bloqueio com perdas, regressando com a esquadra a Athenas. Ahi foi accusado por Xantippo, um dos primeiros personagens da cidade, pae de Pericles, de ter inganado o povo, lesado o thesouro publico, e causado a morte de um grande numero de cidadãos. Milciades não poude comparecer no tribunal, por estar gravemente doente de uns ferimentos recebidos em Paros, e foi condemnado ao pagamento de uma multa equivalente ao dispendio que tinha feito a expedição. Morreu da sua ferida pouco depois,—e seu filho pagou a multa, para não ficar incurso na incapacidade legal para o exercicio de qualquer cargo publico.

Aristides e Themistocles.—Athenas subiu ao primeiro logar entre as nações gregas, e no seu seio travou-se em breve o conflicto de duas ambições rivaes. Dois homens, Aristides e Themistocles, disputavam um ao outro a influencia e o credito:—Aristides, dotado de tal rectidão que recebeu o nome da Justo; Themistocles, homem de genio militar o politico, tendo as mais altas qualidades, infelizmente maculadas por grandes defeitos. Themistocles era o chefe do partido popular. Quando se tratou de dar successor a Milciades no commando da esquadra, elle obteve a preferencia sobre o seu rival. Submetteu algumas das ilhas do Mar Egeu; mas, quando voltou a Athenas, incontrou Aristides á frente de um grande partido (o aristocratico) que o apoiava. Romperam grandes desintelligencias entre as duas parcialidades, e porfim Themistocles conseguiu obter a expulsão de Aristides, por meio do ostracismo. O povo não teve em vista, com esta medida, castigar um homem cujas virtudes apreciava; o que pretendeu foi enfraquecer o partido da nobreza, tirando-lhe o chefe.

Themistocles, ficando chefe da republica, e comprehendendo, ao contrario de todo o povo, que a derrota dos Persas em Marathoha não era o termo da lucta, mas sim o começo de guerras novas, viu com admiravel penetração que o futuro da Grecia dependia do seu ingrandecimento maritimo, e não deixou um momento de pugnar pela creação da marinha atheniense, afim de oppôl-a um dia a novas invasões dos Asiaticos, e ao mesmo tempo para garantir a Athenas o senhorio do mar e a preponderancia sobre os outros Estados gregos.

Para conseguir a realização dos seus projectos, obteve de Delphos uma sentença que o favorecia. O oraculo declarou que a salvação dos Athenienses dependia de se abrigarem cobertos{37} por «muros de madeira». Por estes muros o povo intendeu «navios». O producto das minas de prata do Laurion era até então consumido em festejos publicos ou distribuido pelos cidadãos. Themistocles obteve que fosse empregado na construcção de cem triremes de guerra, e para melhor fazer acceitar a sua proposta valeu-se do profundo rancor que os seus concidadãos tinham á ilha de Egina, por se haver rendido espontaneamente aos Persas, e levou-os a approvarem o augmento das forças navaes com a mira no castigo dos Eginetas.

Expedição de Xerxes.—Dario, o orgulhoso monarcha persa, humilhado com o desastre de Marathona, estava preparando os elementos para uma desforra memoravel quando a morte o surprehendeu. Seu filho e successor, Xerxes, herdeiro do seu odio e dos seus sentimentos de vingança, adoptou os projectos paternos e proseguiu nos armamentos que, em larga escala, se estavam accumulando havia tres annos. Segundo a narrativa de Herodoto, fundada na tradição popular e poetica, o exercito asiatico attingiu o numero de 1.700:000 homens, sendo a esquadra de mais de 1:200 navios de alto bordo.

Em 481, depois de ter atravessado o territorio de Ilion, chegou aquella immensa mole de gente ás praias do Hellesponto. Septe dias, sem interrupção, levou o exercito a passar sobre duas pontes de barcos. Era um mixto de povos e nações diversas: Persas, Médos, Assyrios, Arabes, Sacios, Indios, Mongoes, Ethiopes, etc. Depois da passagem do Hellesponto, dirigiu-se do Chersoneso para a Macedonia e para a Thessalia atravez da Thracia. Os povos das differentes regiões atravessadas, taes como os montanhezes da Dorida, do Pindo, do Ossa, do Pélion, do Olympo, os Thessalianos, uma parte doa Beocios, correram a offerecer ao grande rei as suas homenagens. A esquadra, n'este meio tempo, ia avassallando os mares e apossando-se das ilhas.

Themistocles conseguiu, com os seus esforços patrioticos, fundar uma liga composta dos restantes Estados gregos, que o terror do inimigo não abalára de todo. Formou-se uma dieta, sob a hegemonia de Esparta, no isthmo de Corintho. Por um momento foram esquecidas todas as dissensões internas.

As Thermopylas.—Em Julho de 480, exactamente quando se celebravam os jogos olympicos, appareceram as avançadas do exercito de Xerxes em frente do desfiladeiro das Thermopylas. Ahi as esperava Leonidas, um dos dois reis de Esparta, o qual, segundo o plano de defesa combinado, tinha por{38} missão deter os Persas n'essa estreita garganta, que conduzia da Thessalia para a Locrida, cobrindo ao mesmo tempo a Grecia central. Ao mesmo tempo o exercito naval dos Gregos esperava as esquadras de Xerxes no estreito de Artemision. Para defender o Peloponeso, ultimo refugio da independencia hellenica, estava um exercito de reserva acampado no isthmo.

O rei lacedemonio commandava septe mil homens, entre os quaes se distinguiam trezentos Espartanos. Foi com estes que Leonidas se postou no desfiladeiro, prompto a fazer frente a toda a inundação asiatica. Intimado a intregar as armas, Leonidas respondeu:—«Vem buscál-as!» Quando o inimigo appareceu á vista, disse um grego:—«Os Persas estão ao pé de nós», a que Leonidas replicou:—«Porque não dirás antes que nós estamos ao pé dos Persas?» Os soldados valiam tanto como o chefe. Disse um d'elles, atemorizado, que os inimigos eram em tão grande numero, que as suas flechas escureceriam o sol.—«Tanto melhor, respondeu outro, combateremos á sombra». Leonidas desejava salvar dois mancebos espartanos; deu a um d'elles uma carta, a outro uma commissão para os éphoros.—«Não estamos aqui para levar recados; estamos para combater».