O bispo, como veiu, entrou na camara onde el-rei estava, e os porteiros fizeram logo ir todos os seus e os outros, em guisa que no paço não ficou nenhum, e foi livre de toda a gente.
El-rei, como foi áparte com o bispo, desvestiu-se logo e ficou em uma saia de escarlata, e por sua mão tirou ao bispo todas as suas vestiduras, e começou de o requerer que lhe confessasse a verdade d'aquelle maleficio em que assim era culpado: e em lhe dizendo isto, tinha na mão um grande açoute para o brandir com elle.
Os criados do bispo, quando no começo viram que os deitavam fóra, e isso mesmo os outros todos, e que nenhum não ousava lá de ir, pelo que sabiam que o bispo fazia, dês ahi juntando a isto a condição de el-rei e a maneira que em taes feitos tinha, logo suspeitaram que el-rei lhe queria jogar de algum mau jogo, e foram-se á pressa ao conde velho, e ao mestre de Christo Dom Nuno Freire, e a outros privados de seu conselho, que accorressem asinha ao bispo.
E logo tostemente vieram a el-rei, e não ousaram de entrar na camara, por a defeza que el-rei tinha posta, se não fôra Gonçalo Vasques de Goes, seu escrivão da puridade, que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobrevieram de el-rei de Castella a gram pressa. E por tal azo e fingimento houveram entrada dentro na camara, e acharam el-rei com o bispo em rasões, da guisa que havemos dito, e não lh'o podiam já tirar das mãos. E começaram de dizer que fosse sua mercê de não pôr mão n'elle, cá por tal feito, não lhe guardando sua jurisdicção, haveria o papa sanha d'elle; demais, que o seu povo lhe chamava algoz, que por seu corpo justiçava os homens, o que não convinha a elle de fazer, por muito malfeitores que fossem.
Com estas e outras rasões, arrefeceu el-rei de sua mui brava sanha, e o bispo se partiu de ante elle, com semblante triste e turvado coração.
*CAPITULO VIII*
Como el-rei mandou capar um seu escudeiro, porque dormiu com uma mulher casada.
Era ainda el-rei Dom Pedro muito cioso, assim de mulheres de sua casa, como de seus officiaes e das outras todas do povo, e fazia grandes justiças em quaesquer que dormiam com mulheres casadas ou virgens, e isso mesmo com freiras.
Onde aqueeceu que em sua casa havia um corregedor da côrte a que chamavam Lourenço Gonçalves, homem mui entendido e bem razoado cumpridor de todas as cousas que lhe el-rei mandava fazer, e não corrompido por nenhuns falsos offerecimentos que trasmudam os juizos dos homens. E porque o el-rei achava leal e bem verdadeiro, fiava d'elle muito, e queria-lhe grande bem.
E era este corregedor muito honrado de sua casa e estado, e muito praceiro e de boa conversação, e seria então em meia idade. Sua mulher havia nome Catharina Tosse, briosa, louçã e muito aposta, de graciosas manhas e bem acostumada.