E sendo elle na Beira, soube que uma, chamada por nome Helena, alcovitara ao almirante uma mulher, com que elle dormira, a que diziam Violante Vasques. E mandou logo el-rei queimar a alcoviteira, e ao almirante, Lançarote Pessanho, mandava cortar a cabeça.

E pero os do seu conselho trabalhassem muito por o livrar de sua sanha, nunca o puderam com elle postar, emtanto que o almirante fugiu, e foi amorado, e partiu d'elle por longos tempos, perdidas suas contias e todo seu bem fazer e officio. E não sabendo remedio que sobre isto ter, houve accordo de mandar pedir ao duque e commum de Genova que escrevessem por elle a el rei, que fosse sua mercê de lhe perdoar.

Os genovezes, vendo o recado do almirante, escreveram a el-rei que perdesse d'elle sanha, e a carta de Gabriel Adorno, duque de Genova, e dos anciãos do conselho d'essa cidade, dizia n'esta guisa:

«Principe e senhor mui claro, de grande e real magestade. Esguardada a benignidade, muitas vezes se tempéra por mansidão o modo e rigor da justiça, e a piedosa consideração trabalha sempre de renovar as boas amisades antigas. E se boa cousa é tomar amisades e novas conhecenças, muito melhor é, segundo diz o sabedor, renovar e conservar as velhas, dizendo que o amigo novo não é egual nem semelhante ao de longo tempo. As quaes razões nos fazem haver fiusa na vossa grande alteza, que graciosamente haja de ouvir nossa humildosa supplicacão, a qual é esta, que a nós foi notificado como o nobre cavalleiro Dom Lançarote Pessanho, vosso almirante, filho em outro tempo do nobre barão Dom Manuel Pessanho, digno de boa memoria, nosso amigo e cidadão, haja caido em sanha da vossa real magestade, mais por inveja de alguns que d'elle bem não disseram, que por outras graves maldades que n'elle sejam achadas, segundo corre a commum fama que por razão bem parece; cá não é de querer que saia de regra de bons feitos quem é gerado e descende de padres que sempre foram ennobrecidos por virtuosos e bons costumes. E posto que errasse em alguma cousa, muito deve vossa discreta mansidão temperar o rigor da justiça, renovando por nobres beneficios a lealdade dos seus antecessores: a qual cousa nós esperando da vossa grande alteza, a ella humildosamente pedimos que, pelo que dito é, e nossos afincados rogos, tenhaes por bem tornar o dito almirante á graça primeira de seu bom estado. E por isto vossa real magestade haverá nós e nosso commum apparelhados, de ledo coração, a todas as cousas que lhe forem praziveis. Data, etc.»

Não embargando esta carta, não podiam com el-rei que perdesse sanha do almirante; porém depois a alguns tempos, lhe perdoou el-rei, e foi tornado a sua mercê.

*CAPITULO XI*

Das moedas que el-rei Dom Pedro fez, e da valia do oiro e da prata n'aquelle tempo.

Não se podem tão temperadamente dizer os louvoures de alguma pessoa, que aquelles, cujas linguas sempre têm costume de reprehender, não achem lugares a elles dispostos, em que ameude bem possam prasmar: e nós, porque dissemos d'este rei Dom Pedro que era grado e lêdo em dar, e não dizemos de algumas grandezas que dignas sejam de tanto louvor, poderá ser que nos prasmaram alguns, dizendo que não historiamos direitamente. E isto não é por nós bem não vermos que para autoridade de tão grande gabo não se acham ditos em sua igualdança; mas, por não desviar d'aquelles louvores que os antigos em suas obras encommendaram, contamol-o da guisa que o elles disseram.

Bem achamos que nunca se anojava por lhe pedirem, e que mandava lavrar até cem marcos de prata, em taças e copas, para dar em janeiras, e dava-as cada anno, com outras joias, a quem lhe prazia.

Accrescentou nas contias aos fidalgos e vassalos, como dissemos; cá o vassallo não havia antes de sua contia mais de setenta e cinco libras, e el-rei Dom Pedro lhe poz cento, que eram quinze dobras cruzadas, dobras mouriscas. E por esta contia havia de ter o vassalo cavallo recebondo e loriga com seu almofre, e á sua morte ficava o cavallo e loriga a el-rei, de luctuosa, e dava-o el-rei a quem sua mercê era: em guisa que com aquelle cavallo e armas, posta contia a outro vassalo, ficava sempre o conto dos vassalos certo, e não minguado.