Paraementes se foi bom sabor. Jazia el-rei em Lisboa uma noite na cama, e não lhe vinha somno para dormir, e fez levantar os mocos e quantos dormiam no paço, e mandou chamar João Matheus e Lourenço Palos, que trouxessem as trombas de prata, e fez accender tochas, e metteu-se pela villa em dança com os outros. As gentes que dormiam, saiam ás janellas, a vêr que festa era aquella, ou por que se fazia, e quando viram d'aquella guisa el-rei, tomaram prazer de o vêr assim lêdo. E andou el-rei assim grão parte da noite, e tornou-se ao paço em dança, e pediu vinho e fructa, e lancou-se a dormir.
E não curando mais falar de taes jogos: ordenou el-rei de fazer conde e armar cavalleiro João Affonso Tello, irmão de Martim Affonso Tello, e fez-lhe a mór honra, em sua festa, que até áquelle tempo fora visto que rei nenhum fizesse a semelhante pessoa; cá el-rei mandou lavrar seiscentas arrobas de cêra, de que fizeram cinco mil cirios e tochas, e vieram de termo de Lisboa, onde el-rei então estava, cinco mil homens das vintenas para terem os ditos cirios. E quando o conde houve de velar suas armas, no mosteiro de São Domingos d'essa cidade, ordenou el-rei que dês aquelle mosteiro até aos seus paços, que é assaz grande espaço, estivessem quedos aquelles homens todos, cada um com seu cirio accesso, que davam todos mui grande lume, e el-rei, com muitos fidalgos e cavalleiros, andavam por entre elles dançando e tomando sabor, e assim dispenderam grão parte da noite.
Em outro dia, estavam mui grandes tendas armadas no rocio, a cerca d'aquelle mosteiro, em que havia grandes montes de pão cosido, e, assáz de tinas cheias de vinho, e logo prestes por que bebessem, e fòra estavam ao fogo vaccas inteiras em espetos a assar, e quantos comer queriam d'aquella vianda, tinham-na muito prestes, e a nenhum não era vedada. E assim estiveram sempre em quanto durou a festa, na qual foram armados outros cavalleiros, cujos nomes não curamos dizer.
*CAPITULO XV*
Das avenças que el-rei de Castella e el-rei Dom Pedro de Portugal firmaram entre si, e como lhe el-rei de Portugal prometteu de fazer ajuda contra Aragão.
Escrevem alguns louvando este rei Dom Pedro, dizendo que reinou em paz em quanto viveu, e fortuna não fez sem-razão de encaminhar o começo, e meio, e fim de seu mando, de viver em socego e folgada paz; cá elle, por morte de el-rei seu padre, achou o reino sem nenhuma briga por que houvesse de haver contenda com nenhum rei da Espanha, nem de outra provincia mais alongada.
Dês ahi, como elle reinou, mandou logo Ayres Gomes da Silva e Gonçalo Annes de Beja, a el-rei de Castella, seu sobrinho, com recado, e de Castella veiu a elle, da parte de el-rei Dom Pedro, um cavalleiro, que chamavam Fernão Lopez de Estuñega. E tratou-se então, entre os reis, que fossem ambos verdadeiros e leaes amigos, e firmaram d'aquella vez suas amisades.
Depois d'isto, a cabo de um anno, estando el-rei Dom Pedro em Evora, chegaram mensageiros de el-rei de Castella, a saber, Dom Samuel Levi, seu thesoureiro-mór, e Garcia Guterrez Tello, alguazil mór de Sevilha, e Gomes Fernandez de Soria, seu alcaide, e trataram, entre os reis ambos, muito mais perfeitas amisades que antes. E foi mais ordenado, entre elles, que o infante Dom Fernando, seu primogenito filho, e herdeiro em Portugal, casasse com Dona Beatriz, filha do dito rei de Castella, e que se fizessem os desposorios, por seus procuradores, dês fevereiro meiado seguinte até ao primeiro dia de março que vinha, e as bodas logo no postumeiro dia de abril, e que el-rei de Castella desse á dita sua filha, em casamento, outro tanto haver quanto el-rei Dom Affonso de Portugal dera, com sua filha Dona Maria, a el-rei Dom Affonso seu padre, e que el-rei de Portugal desse á dita Dona Beatriz, em arrhas e doação, outro tanto quanto seu padre, el-rei Dom Affonso, déra a Dona Constança, quando com elle casára, e mais, que casasse Dona Constança, filha do dito rei Dom Pedro de Castella, com o infante Dom João, e a outra filha, que chamavam Dona Izabel, casasse com o infante Dom Diniz, e que os desposorios e casamentos d'estes fossem acabados d'ahi a seis annos, e que el-rei de Castella desse taes lugares a cada uma d'ellas, de que houvessem de renda noventa mil maravedis, e el-rei de Portugal, a cada um dos infantes, lugares que lhe rendessem cada anno dez mil libras de portuguezes; e que el-rei de Castella fosse seu amigo, e imigo de imigo, e que se ajudassem um ao outro por mar e por terra, cada vez que requerido fosse, e que el-rei de Castella não fizesse paz com el-rei de Aragão, contra quem lhe elle então requeria ajuda, sem lh'o fazer saber primeiro, nem com outro nenhum rei e senhor.
Onde sabei, que esta ajuda, que el rei de Castella então pediu a el-rei Dom Pedro de Portugal, fôra já antes pedida por elle a el-rei Dom Affonso, seu padre, quando este rei Dom Pedro de Castella começou a guerra contra el-rei Dom Pedro de Aragão, que foi no postumeiro anno do reinado do dito rei Dom Affonso, segundo adiante vereis; a qual ajuda havia de ser gentes de cavallo por terra, e certas galés pelo mar.
El-rei Dom Affonso respondeu a seu neto, que elle sabia bem e era certo das posturas e firmidões que foram feitas entre el-rei Dom Diniz, seu padre, e el-rei Dom Fernando, seu avó, e el-rei Dom Jayme de Aragão, as quaes todos tres firmaram por si e por todos seus successores, e havido accordo com todos os bons da casa de Portugal, que para ello foram juntos em conselho, achou el-rei Dom Affonso que lhe não podia fazer a dita ajuda, com aguisada razão: e vista tal resposta por el rei de Castella, cessou de lh'a mais requerer.