Mandou matar tres homens bons da cidade de Burgos, a saber, Pero
Fernandez de Medina, e João Fernandez, escrivão, e Affonso Garcia de
Camargo.

Idem, cercou Dom Affonso Fernandez Coronel, na villa de Aguilar, e entrou-o por força, e mandou-o matar, e Pero Coronel seu sobrinho, e João Gonçalvez d'Eça, e Pero Dias de Quesada, e Rodrigo Annes de Beema, e João Affonso Carrilho, mui bom cavalleiro.

Mandou el-rei pedir a el-rei de França que lhe desse por mulher uma das filhas do duque de Bourbon seu primo, e de seis filhas que elle tinha, escolheram os mensageiros uma, que chamavam Dona Branca, moça de 18 annos e bem formosa, e receberam-na em seu nome. E como el-rei Dom Pedro isto soube, mandou que lh'a trouxessem logo, e enviou el-rei de França com ella o visconde de Cardona e outros grandes cavalleiros de sua terra, que lh'a trouxeram mui honradamente; e deu-lhe com ella mui grão casamento em oiro e prata e outras riquezas, e foram então feitas as dobras que chamaram de Dona Branca, e os reaes de Castella de el-rei Dom Pedro.

E emquanto os mensageiros foram tratar este casamento, tomou elle por manceba Maria de Padilha, que andava por donzella em casa de Dona Isabel de Menezes, filha de Dom Tello de Menezes, mulher de Dom João Affonso de Albuquerque, que a criava. E tal vontade poz el-rei n'ella, que já não curava de casar com Dona Branca quando veiu, tendo já da outra uma filha que chamavam Dona Beatriz.

E por conselho de Dom João Affonso de Albuquerque, pero muito contra vontade d'el-rei, ordenou de fazer suas bôdas em Valhadolid, e foram feitas uma segunda feira. E logo á terça seguinte, como el-rei comeu, a cabo de uma hora, deixou sua mulher, que não valeu rogo nem lagrimas da rainha Dona Maria sua madre, nem da rainha de Aragão sua tia, que o pudessem ter que se não partisse, e levou tal andar que foi essa noite dormir á aldeia de Pajares, que são dezeseis leguas de Valhadolid, e em outro dia chegou a Montalban, onde estava Dona Maria de Padilha. E tinha el-rei, quando partiu, e alguns dos que com elle iam, mulas em certos lugares, pero não chegaram com elle mais de tres; e foi por isto grande alvoroço entre os senhores e fidalgos do reino que alli eram, e alguns foram logo partidos d'el-rei.

Depois, por afincado conselho, tornou el-rei a Valhadolid e esteve com sua mulher dois dias, e nunca mais puderam com elle que alli assocegasse; e partiu-se e nunca a mais quiz vêr. E o visconde e cavalleiros, que com ella vieram, se partiram sem mais falar a el-rei.

Sendo viva esta rainha Dona Branca, não havendo mais de um anno que el-rei com ella casara, pareceu-lhe bem Dona Joanna de Castro, filha de Dom Pedro de Castro, que chamaram da Guerra, mulher que fôra de Dom Dïego de Alfaro, e commetteu-lhe por outrem que casasse com elle. E ella não querendo, porque el-rei era casado, disse elle que tinha razões por que o não era: e mandou aos bispos de Avila e de Salamanca que pronunciassem que podia casar. E elles, com medo, disseram-no assim, e foram recebidos na villa de Qualhar, dentro na igreja, solemnemente, pelo bispo de Salamanca que os recebeu ambos. Em o outro dia partiu el-rei d'alli, e nunca mais viu esta Dona Joanna: e ella chamou-se sempre rainha, pero não prazia a el-rei d'ello.

A rainha Dona Maria tomou comsigo sua nora e foi-se para Outerdesilhas, e dês-ahi mandou-a el-rei levar guardada a Revollo, que a não visse sua madre nem outro nenhum, e depois a teve presa em Medina-Sidonia e alli a mandou matar, sendo então a rainha com idade de vinte e cinco annos, muito sisuda e bem acostumada.

E elle teve ordenado de mandar matar Alvaro Gonçalves Mourão, e Dom Alvaro Perez de Castro, irmão de Dona Ignez, madre de Dom João e de Dom Diniz, filhos de el-rei Dom Pedro de Portugal, sendo então infante; e foram percebidos por Dona Maria de Padilha, que lh'o mandou dizer, e assim escaparam de morte.

Mandou matar em Medina del Campo, um dia pela festa, em seu paço, Pero
Rodriguez de Vilhegas, adiantado mór de Castella, e Sancho Rodriguez de
Rojas; e foi morto um escudeiro de Pero Rodriguez.