A rainha Dona Maria, com seu filho el-rei Dom Pedro e todos os que eram em Sevilha, saíram fóra da cidade receber o corpo de el-rei, e foi-lhe feito mui honradamente tudo aquillo que cumpria, e soterrado na egreja de Santa Maria, na capella dos Reis.
El-rei D. Pedro, sabendo a partida de seus irmãos e dos outros fidalgos, e como estavam em Aljazira, mandou saber secretariamente que maneira tinham, e achou que se apoderavam do logar o mais que podiam; e mandou lá galés armadas, e Guterre Fernandez de Toledo por capitão: e o conde D. Henrique, e os outros vendo que lhes não cumpria estar alli, tornaram-se para Moram, onde estava Dom Fernão Rodriguez Ponce.
Em isto foi-se Dona Leonor Nunez a Sevilha, e posta de parte a segurança que lhe feita tinha, mandou-a el-rei guardar mui bem no alcaçar, e trataram depois, por parte de el-rei, com o conde Dom Henrique, e com os outros senhores, de guisa que se vieram todos a Sevilha para el-rei. E o conde ia vêr cada dia sua madre, com a qual estava Dona Joanna, filha de Dom João Manuel, sua esposa. E houveram accordo, a madre com o filho, que houvesse ajuntamento com sua esposa, por se não desfazer o casamento segundo rugiam; e fel-o assim, e pezou d'isto muito a el-rei, e á rainha sua madre, e a outros muitos, e por isto defendeu el-rei que a não fosse nenhum mais vêr: e levaram-na d'alli para Carmona, e o conde Dom Henrique fugiu para as Asturias, por quanto lhe disseram que o mandava el-rei prender. Depois foi levada Dona Leonor, sua mãe, a Talavera, e alli a mandou matar a rainha Dona Maria por Affonso Fernandez de Olmedo, seu escrivão, como já tendes ouvido.
O conde Dom Henrique estando nas Asturias, ouviu como el-rei mandara matar sua madre, e depois Garcia Lasso, adiantado de Castella, e não ousou de estar alli, e foi-se a Portugal para el-rei Dom Affonso: e quando el-rei Dom Pedro fez vistas com seu avô em Cidade Rodrigo, como dissemos, rogou el-rei Dom Affonso a seu neto que perdoasse ao conde, e elle perdoou-lhe, e tornou-se o conde para as Asturias, cá não ousou de se ir para el-rei.
E elle nas Asturias, soube el-rei como abastecia Gijon, e foi-se lá, e cercou o lugar, onde estava sua mulher Dona Joanna, cá elle não se atreveu de o esperar alli, e foi-se em tanto a uma montanha mui forte que dizem Montojo, e os de Gijon pleitearam com el-rei que perdoasse ao conde, e a el-rei prouve, e tornou-se.
E quando el-rei houve de fazer suas bôdas em Valhadolid com Dona Branca, segundo contámos, chegou o conde Dom Henrique e Dom Tello seu irmão, e trazia o conde seiscentos homens de cavallo e mil e quinhentos de pé; e sendo em Cijalles, duas leguas d'onde el-rei estava, mandou-lhe dizer que não ousaria de entrar na villa, salvo com toda sua gente, porquanto se receava de alguns que eram na côrte. E el-rei mandou-o segurar: não se fiaram do seguro, e houveram de pelejar com el-rei, que sahiu a elles. Depois, foram de accordo com elle, e ficaram em sua mercê.
Casou el-rei com Dona Branca, e deixou-a em outro dia, e foi-se para Dona Maria de Padilha. E d'essa idéia foi desavindo d'elle Dom João Affonso de Albuquerque que governava a casa d'el-rei. E tratou-se depois que Dom João Affonso estivesse em Portugal, se quizesse, e que seus castellos e bens, que havia em Castella, fossem seguros: prometteu-lh'o el-rei assim, e depois que Dom João Affonso foi em Portugal, cercou-lhe el-rei Medelin, e cobrou-o, e fel-o derribar, e depois cercou Albuquerque, e não o podendo tomar, partiu-se d'alli, e deixou por fronteiros, em Badalhouce, o conde Dom Henrique e o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão.
Partido el-rei d'alli, enviou o conde seu recado a Dom João Affonso, que fossem todos trez amigos, e entrassem por Castella, e a elle prouve muito, e firmaram seu preito de ser assim; e houveram Dom Fernando de Castro em sua ajuda, que estava em Galliza, e começaram de entrar por Castella, fazendo n'ella grande estrago.
N'isto mandou el-rei Dom Pedro João Affonso de Henestrosa, seu camareiro-mór, a Arevalo onde estava a rainha Dona Branca, sua mulher, que a trouxesse ao alcançar de Toledo, e elle trazendo-a pela cidade, disse ella que queria ir primeiro fazer oração á igreja de Santa Maria, e dês-que foi dentro na igreja, não quiz mais sahir d'ella, receando-se de ser morta ou presa. João Affonso não se atreveu de a fazer sahir da igreja contra sua vontade, e tornou-se para el-rei. Os moradores de Toledo falando sobre isto, houveram piedade da rainha, e accordaram de a não deixar prender nem matar n'aquella cidade, e determinaram de pôr por ella os corpos, e quanto haviam. E mandaram primeiro por Dom Fradarique mestre de São Thiago, e colheram-no dentro com suas companhas, e mais enviaram suas cartas ao conde Dom Henrique, e a Dom João Affonso d'Abuquerque, e a Dom Fernando de Castro, fazendo-lhe saber sua intenção; e tiveram com Toledo, por parte da rainha, a cidade de Cardona, e Cuenca, e o bispado de Jaen e Talavera. Que cumpre dizer mais: os infantes Dom Fernando e Dom João, primos d'el-rei, e muitos senhores e cavalleiros, se partiram d'elle por ajudar a tenção dos outros, em guisa que não ficaram com el-rei mais de seiscentos de cavallo. E todos aquelles senhores lhe mandavam dizer que prestes eram para o servir e fazer seu mandado, com tanto que tomasse sua mulher, e vivesse com ella e não regesse o reino pelos parentes de Dona Maria de Padilha, nem os fizesse seus privados: e el-rei não quiz cair em tal preitesia.
N'isto adoeceu Dom João Affonso de Albuquerque, e el-rei mandou encobertamente tratar com o physico, que pensava d'elle, que lhe faria mercês e que lhe desse com que morresse; e elle fel-o assim, segundo depois foi sabido; e os vassalos de Dom João Affonso prometteram de não enterrar o seu corpo até que esta demanda fosse acabada, e elle assim o mandou em seu testamento. E quando aquelles senhores ordenavam conselho sobre aquillo que lhes convinha fazer, falava em lugar de Dom João Affonso, Ruy Dias Cabeça-de-Vacca, que fôra seu mordomo-mór. E eram as gentes d'estes senhores todos até cinco mil de cavallo, e muita gente de pé.